EditorialOfensa ao trabalhador
A revolta do presidente Fernando Henrique Cardoso com os parlamentares que não votaram com o governo na questão da idade limite para a aposentadoria é compreensível. Sente-se o chefe da Nação traído, com toda razão. Afinal, através dos complicados jogos da política, tão necessários para que o Executivo tenha maioria no Legislativo, o presidente da República conseguiu costurar uma base aparentemente confortável. O que isto custa ao país em termos de acordos e troca de favores, é difícil calcular. Claro, fala-se em entendimentos de alto nível, mas a verdade é que aquela política do ‘é dando que se recebe’, cunhada durante o governo José Sarney, notadamente durante as discussões da Assembléia Constituinte, não parece ser coisa do passado. Fato é que depois de fazer as maiores concessões - e certamente algumas não reveladas -, o governo perdeu uma votação da maior importância, o que deu motivo de sobra para a irritação do chefe do Executivo.
Todavia, isto não justifica o destempero verbal do presidente, que foi categórico ao chamar de vagabundo todos os que se aposentaram antes de 50 anos de idade. O ataque acabou atingindo, além dos trabalhadores, alguns dos aliados do presidente. Com efeito, deputados federais se auto-outorgaram aposentadoria após o exercício de dois mandatos. Têm, assim, plena condição de conquistar a aposentadoria antes dos 50 anos. Mais sério: a acusação atinge diretamente o ex-ministro da Previdência Reinhold Stephanes (PFL-PR) e o ex-secretário geral da Presidência Eduardo Jorge Caldas, ambos aposentados antes de chegar à idade citada pelo presidente. Muitos outros políticos igualmente conseguiram este benefício. O próprio presidente foi aposentado pelo AI-5 antes dos 50 anos. Certo, no caso não se tratou de artifício para ganhar sem trabalhar, mas isto o coloca na mesma faixa dos que chamou de vagabundos.
De acordo com a legislação brasileira vigente, há de fato trabalhadores que se aposentaram antes dos 50. Atualmente, isto também é possível. Mas quando se sabe das condições dos aposentados brasileiros, quando se conhece a realidade da vida de quem começou a trabalhar na mais tenra idade e chegou à aposentadoria após contribuir por 35 anos, chamar tais cidadãos de vagabundos é um absurdo sem nome. E não se pode deixar de notar também que muitos dos aposentados, com mais ou menos de 50 anos, bem que gostariam de estar na ativa. Mas são afastados pelo preconceito. Trabalhadores com mais de 40 anos já enfrentam enormes dificuldades para obter trabalho. A aposentadoria, no caso, serve até como espécie de tábua de salvação, embora precária, já que a maioria ganha o mínimo, diante de situação real da falta de opções.
Dentro desta linha de raciocínio, em pouco o presidente poderá estar chamando de vagabundos também os milhões que querem trabalhar e não encontram vaga em um mercado que não estimula o investimento produtivo e dificulta a criação de postos de trabalho. É profundamente lamentável sentir este tipo de reação preconceituosa do cidadão que está à testa do Executivo federal e que deveria ter visão melhor da realidade nacional e da situação dos trabalhadores brasileiros, ainda mais por ser sociólogo.
Entende-se toda a pressão que o presidente vem sofrendo, a decepção diante da falta de fidelidade dos que, na Câmara, formam os partidos que apóiam - ou deveriam apoiar - o governo. Entretanto, deplora-se, em qualquer circunstância, o destempero de quem assim desconsidera, sem qualquer profundidade, o humilde trabalhador brasileiro.

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