No dia 8 de setembro de 2000, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), resultado da Declaração do Milênio das Nações Unidas, adotada pelos 191 países membros. O documento trazia oito metas definidas em cúpulas mundiais ao longo dos anos 1990, como o combate à fome e à miséria, universalização da educação básica, redução da mortalidade infantil e respeito ao meio ambiente.

Com o prazo dos ODM vencendo no final deste ano, a ONU comemora parcialmente os resultados. Segundo o organismo mundial, os objetivos ajudaram a acabar com a pobreza, mas não completamente. A redução da mortalidade infantil foi outro item com resultados satisfatórios. No entanto, a meta de ter todas as crianças matriculadas no ensino fundamental, uma das peças principais para mudar todos os indicadores, não será atingida até o fim do ano.

Para atualizar as metas, as Nações Unidas criaram recentemente os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), como parte de uma nova agenda que deve finalizar o trabalho dos ODM. Os 17 novos objetivos para os próximos 15 anos foram lançados entre os dias 25 e 27 de setembro, na sede da ONU, em Nova Iorque.

Como presidente do capítulo brasileiro dos Princípios para Educação Executiva Responsável (PRME - diretrizes sustentáveis estabelecidas pela ONU para escolas de negócios do mundo), o presidente do Instituto Superior de Administração e Economia (Isae), Norman de Paula Arruda Filho, foi um dos cinco signatários do PRME no mundo. Confira a entrevista com o especialista em administração pública, gaúcho radicado em Curitiba.

Como você avalia os resultados dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que se encerram este ano?

Os oito objetivos estabelecidos na Declaração do Milênio, em 2000, retroativos a 1990, foram bem-sucedidos em todo o mundo, embora haja deficiências. Os dados apresentados no relatório mostram que até mesmo os países mais pobres evoluíram. Há 20 anos, quase metade da população dos países em desenvolvimento vivia em extrema pobreza. Agora, o número de pessoas que vivem nesta condição diminuiu em mais da metade, passando de 1,9 bilhão em 1990 para 836 milhões em 2015. A taxa de crianças que morrem antes de completar cinco anos diminuiu em mais da metade. Os números relativos à mortalidade materna mostram um declínio de 45% em todo o mundo. Investimentos destinados à luta contra doenças, como o HIV/aids e a malária, trouxeram resultados sem precedentes. Mais de 6,2 milhões de mortes por malária foram evitadas entre 2000 e 2015. Em todo o mundo, 2,1 bilhões ganharam acesso a um melhor saneamento. São números impressionantes.

Quais foram os principais avanços que o Brasil teve com os ODM?

Os avanços foram muito significativos, principalmente no Brasil. O programa de combate à fome foi um sucesso reconhecido internacionalmente. O Fome Zero foi uma lição para o mundo. A meta da ONU de reduzir a fome e a pobreza extrema até 2015 à metade do que eram em 1990 foi alcançada pelo Brasil em 2002. A meta nacional de reduzir a porcentagem de pobres a 1/4 da de 1990, apesar de mais ambiciosa, também foi cumprida e superada em 2008. Há que se destacar também questões de proteção à infância, redução do índice de mortalidade infantil. A taxa de mortalidade infantil por mil nascidos vivos passou de 29,7, em 2000, pra 15,6, em 2010. Essa taxa é menor que a meta prevista para 2015, de 15,7 por mil nascidos vivos. Nestas duas questões, eu ressalto dois nomes: o da ex-primeira dama Ruth Cardoso e o da médica Zilda Arns, com a Pastoral da Criança.

Em quais quesitos o País deixou a desejar?

Com certeza a falta de políticas públicas definidas e investimentos para a educação é um desses quesitos. Estudos recentes fizeram uma comparação entre o Brasil e a Coreia do Sul na educação. Os dados deixam claro a relação entre investimento em educação e desenvolvimento econômico-social. Enquanto a Coreia do Sul tem uma curva ascendente fantástica a partir de 1985, fomentada com robustos investimentos, o Brasil segue em um ritmo lento, triste. Infelizmente, o acesso à educação básica universalizada é um dos itens que não serão atingidos em nível mundial, nem pelo Brasil. Outra questão decepcionante no Brasil foi a gestão dos recursos hídricos. A seca na Região Sudeste expôs o caos provocado pela falta de água. É comprovada a luta por recursos. Hoje é o petróleo, amanhã será a água. Logo, a economia passa a ter outras peças e o comportamento muda de forma radical. Londrina, por exemplo, tem a abundância de água do Rio Tibagi, mas a pergunta é: até quando?

Por que essas metas não foram atingidas?

No caso da educação, fica clara a falta de políticas públicas. Mas, mais que isso, os países em desenvolvimento têm um inimigo em comum: a corrupção. A ação de corruptos e corruptores compromete todo o processo. O cara se vende por muito pouco, aí o dinheiro não chega onde tem de chegar. A educação é uma das pastas que mais sofrem com esse mal. A questão ecológica também não foge muito disso, mas aí também implica na conscientização. Temos que repensar a energia limpa, fatores climáticos. Não existe solução localizada.

O que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável trazem de novo?

É uma nova concepção. Os Objetivos do Milênio foram criados por um comitê e os países foram chamados para ser signatários. Com os ODS foi diferente. Houve todo um trabalho de construção baseado na experiência de duas décadas de prática de desenvolvimento e a partir de contribuições obtidas através de um processo aberto e inclusivo. Todos os setores da sociedade civil tiveram voz. Os objetivos são mais ambiciosos. Agora a meta é acabar com a miséria, acabar com a fome. Não é reduzir, como antes. Isso é mais que viável, é necessário. A discussão deixou de ser apenas governamental. O cidadão comum terá um papel fundamental para o sucesso das metas. Passou da hora de assumirmos nossas responsabilidades para um mundo sustentável. As 17 novas metas podem parecer distantes do cidadão, mas não são. Cada um de nós precisa ser um protagonista social.

Como atingir o protagonismo social?

Primeiro, é preciso ter informação. Depois, buscar exemplos positivos e negativos de outros países, estados, cidades, bairros. Não se deve ter vergonha de se atrelar à sua comunidade. Para mudar o mundo, temos que começar pelo nosso quadrado. Passa pela sensibilização, onde posso me posicionar. Esta é uma coisa que ninguém pode fazer por você. Pequenas ações em cadeia fazem a diferença. É preciso ter um grau de engajamento, de capacidade de transformar, promover educação transformadora. Se o que eu ensino não resultar nisso, em formar cidadãos capazes de ser protagonistas sociais, eu paro o que faço na hora.

A sustentabilidade, por consequência, as metas, sobrevivem à crise mundial?

Nunca houve uma convocação tão forte, uma conscientização do setor privado. As grandes empresas perceberam que fora do sustentável o desenvolvimento é efêmero. A sustentabilidade hoje entra no cardápio dos investidores. Há pelo menos 170 quesitos em que as empresas são cobradas pelo mercado. Atualmente, a sustentabilidade já transcendeu a ideia de que não pode existir em tempos de crise, porque ela não é mais artigo de luxo, mas sim necessidade básica. As transformações se dão de modo muito rápido. Hoje há geração de produtos que nem conhecemos os seus rumos e já estamos sendo impactados por eles. É preciso repensar o modelo. Com certeza, a sustentabilidade é um dos itens fundamentais neste processo.

Este nível de conscientização já atinge toda a população?

Os ODS ganharam uma força muito grande, passaram a entrar na agenda da sociedade. A sociedade passou a cobrar. Na Assembleia Geral da ONU, pudemos ver representantes populares de todo o mundo. Um reflexo disso foi a presença do Papa Francisco. Em sua fala, ele defendeu o cumprimento dos objetivos. É uma política cristã. Hoje há uma legitimidade nisso tudo. O cidadão tem que entender que não é uma coisa distante, ele é a chave para fazer funcionar toda a engrenagem.

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