Como é que se deve escrever: com a razão ou com a emoção? Com a razão pretendemos ser a verdade do mundo. Com a emoção somos a essência da vida. Com a razão elaboramos a ciência, com a emoção criamos a arte. Com a razão, necessária razão, costumamos ser arrogantes, abrindo discordâncias, gerando mal-entendidos, deixando vir à tona nossa vaidade ao prescrever aos outros preceitos que são apenas nossos e de mais ninguém.
Com a emoção nos tornamos humildes, universais, capazes de chorar misérias comuns, compartilhar dores conhecidas, exaltar alegrias perseguidas nos caminhos da esperança, este clarão sempre a luzir nos becos da nossa travessia por esse desvalido Planeta.
E então, como escrever (que é coisa de grande responsabilidade) quando começa, pelo menos na Era cristã, a odisséia 2001? Com a razão ou com a emoção? Talvez o melhor seja simplesmente começar explicando o significado da palavra odisséia. É que mesmo nessa época de prodígios e avanços impressionantes, continuamos no mais das vezes falando sem entender o que dizemos, e sem nos fazer entender. Portanto, explicar palavras é tentar superar dificuldades de comunicação que trazemos de nascença e por limitações de nossa natureza.
Ah, como é difícil o entendimento! Fala-se uma coisa e a palavra já voa com outro sentido para quem a escuta. Vai ver que isso acontece porque as intenções humanas são sempre diferentes entre si. Além do mais, a linguagem nem sempre decola da verdade dos pensamentos, seguindo os caminhos da simulação e da ambiguidade.
Desse modo, se alguém é sincero, ao outro interessa iludir. Este é honesto, aquele só pensa em enganar. Um está muito certo de sua verdade, e o outro acostumou-se a mentir por prazer ou por maldade. E maldade é o que não falta apesar dos estoques de bondade irem resistindo.
Por isso, quando se fala, ou pior, quando se escreve, que é quando se registra para o testemunho público o que se pensa, é preciso explicar melhor certas palavras porque elas podem confundir.
Então, voltemos à odisséia, porque há um certa preguiça generalizada de ir-se ao dicionário em busca de significados. E olha, se nem na vida corriqueira estamos interessados em descobrir os mistérios dos significados que nos cercam, crentes que eles não tem nada a ver com nosso destino e direção, quanto mais estamos dispostos a escarafunchar palavras, tornando mais lenta a tarefa de ler.
Pois bem, expliquemos: odisséia é o poema do grego Homero, que em tempos distantes e mágicos narrou o retorno de Ulisses à sua pátria depois da tomada de Tróia. Bela época na qual deuses e heróis transitavam com a maior naturalidade entre os comuns mortais. Daí vem o encantamento desse termo, que passou a significar também narração de aventuras extraordinárias; ou viagem cheia de peripécias e aventuras; ou ainda série de complicações, peripécias e aventuras variadas e inesperadas.
Gosto mais do último significado, que acrescenta aos demais as palavras ‘‘complicações’’, ‘‘variadas’’ e ‘‘inesperadas’’. Isso porque a vida entendida como odisséia é mesmo uma aventura extraordinária onde não faltam complicações sem conta para nos obrigar a progredir e exercitar a coragem.
E acontecem sempre na nossa odisséia fatos variados, que se contam aos montes, tanto os bons quanto os ruins, todos eles compondo a diversidade da existência que sem o contraste entre a tristeza e a alegria jamais nos conferiria noção de felicidade.
E ainda, o melhor de tudo, e que faz da aventura da vida uma odisséia extraordinária: o inesperado, aquilo que às vezes surge sem mais aquela nas esquinas do viver, fazendo da surpresa um treinamento de sobrevivência quando ela é ruim, e de fruição quando é só impacto de belas sensações que podem envolver da visão do pôr-do-sol à alegria do canto dos bem-te-vis, da paz da chuva mansa no telhado ao esplendor do azul do mar ao entardecer, da intensidade das paixões humanas à grandiosidade do amor divino.
Ou ainda do que mais cada um sentir no seu íntimo como inesperado, que do jeito que for confere graça à vida. É que viver também é ansiar pelo inesperado, mesmo que ele traga vislumbres do medo. O medo do desconhecido, que nada mais é que do que a aventura no sentido de experiência incomum.
Foi isso que acentuou Homero ao contar as peripécias de Ulisses que enfrentou perigos sem conta, guerra, medo, exatamente como o herói humano que existe dentro da cada um de nós, perenes combatentes nas agruras da existência.
É que feitas as contas e dados os descontos, se não guerreamos em Tróia estamos sempre envolvidos em nossas guerrilhas particulares, travadas internamente quando vacilamos diante de nossas escolhas, esmorecemos em nossa coragem e pensamos estar a sucumbir aos nossos penares. Ou então, estamos pelejando em lutas externas, nas quais o combate é questão de sobrevivência em detalhes múltiplos que cada um sabe quais são.
Nesse ano de 2001, onde continuamos a resistir como sobreviventes da espécie, o que não é pouco, cada um prosseguirá sua odisséia para fazer o mundo ser que é. Na vida, lembremos, todos são necessários, pois não há desperdício na natureza.
Naveguemos, então, como buscadores da eternidade, sabendo que por aqui tudo é transitório; ao cair, levantemos, para não perder o costume de aprender; empenhemo-nos em entender os significados das palavras e da vida que só nós mesmo podemos decifrar; e sendo falíveis, tentemos vôos rumo às altitudes angelicais que também são nossas. Isso será suficiente para que os bons ventos da alegria e da esperança nos impulsionem por mais 100 anos.
Era o que pensava nesta tarde quente de verão, quando me indagava se deveria escrever com a razão ou com a emoção.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora e professora universitária em Londrina
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