Boa parte dos países que ocupa a parte Ocidental do globo deve muito às reflexões e conjecturas arquitetadas por pensadores que viveram na Grécia Antiga. Democracia, política e cidadania são alguns dos vários conceitos cunhados pelos gregos que atravessaram séculos e hoje fazem parte de nosso vocabulário cotidiano. Parte desses pensadores são muito famosos atualmente, outros se perderam pelo tempo e alguns não se tornaram tão conhecidos assim. É o caso do historiador Políbio, originário da cidade de Megalópole que viveu entre os século III e II a.C. e se tornara cativo dos romanos quando esses derrotaram definitivamente a Macedônia, instituindo o controle romano na região. Levado para Roma, Políbio teve a oportunidade de conviver com a elite política e intelectual da cidade e, ao longo de 17 anos de estadia, conseguiu graças a sua amizade com um importante político - Cipião Emiliano - acumular viagens a diversos locais, além de presenciar a destruição e ocupação de vários territórios pelos romanos. E, baseado em toda essa experiência de vida acumulada, escreveu uma obra clássica da antiguidade: Historiae, ou Histórias.

Ao longo de 40 volumes, Políbio narra a ascensão romana frente à cidade de Cartago nas conhecidas Guerras Púnicas que se sucederam entre os anos de 264 e 146 a.C. Após este período, Roma passa a deter o controle do comércio marítimo na região eliminando definitivamente os cartagineses, acontecimento que abriu caminho para a ascensão do poderio romano em relação aos demais povos que viviam as margens do mar Mediterrâneo. Mas é no volume IV de sua obra que Políbio apresenta a seguinte reflexão: existem seis formas de governo, sendo basicamente três boas e três más. As três formas boas seriam autocracia, aristocracia e democracia, e suas respectivas degenerações, tirania, oligarquia e oclocracia.


Assim, um governo que se inicia como uma autocracia (ou seja, governo representado por um único elemento, como um imperador, por exemplo) tende, com o passar do tempo, a se tornar uma tirania. Neste momento um pequeno grupo de pessoas se rebela e assume o controle da situação, dando origem a um governo aristocrático (governo de poucos). A degeneração aqui se dá quando os poucos que governam criam situações que apenas os beneficiam, ou seja, uma oligarquia. É neste momento que a população exige uma participação maior nas decisões governamentais, e assim a oligarquia dá espaço para a democracia onde todos podem participar das decisões políticas. A degeneração da democracia é a sua transformação em um governo dos piores, uma oclocracia, que só se concretiza porque a população se deixa levar pela retórica de seus governantes.

Traçando um paralelo com a História do Brasil (pelo menos do Império até a contemporaneidade) é interessante constatar que, guardadas as devidas proporções, o esquema teórico polibiano se encaixa muito bem: D. Pedro pai e filho silenciaram movimentos de contestação Brasil afora à base de muita violência tirânica; os aristocratas brasileiros passaram a atuar nos bastidores da República depois do golpe infringido ao Império, estruturando ideias e instituindo leis oligárquicas; e, por fim, depois de muita reivindicação popular, vivenciamos nos últimos 30 anos o sistema democrático.

Mas, assim como conjecturou Políbio a mais de dois mil anos, o pensamento oclocrata baseado em achismos e convicções enfim venceu a democracia. O governo dos piores agora assume as rédeas de uma nação que foi incapaz de não se deixar levar pela retórica muito bem tramada pelos piores. E este governo dos piores anunciou através de seu principal porta voz que não quer ser chamado de golpista. Mas se depender da honestidade intelectualmente de alguns, dificilmente deixará de carregar para a posteridade tal alCunha.

LEANDRO CESAR LEOCÁDIO é professor de História e mestre em História Social pela Universidade Estadual de Londrina

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