ÓCIO ARRISCADO - Jovens optam por fugir do estudo e do trabalho
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
Sociedade deveria oferecer mais oportunidades de emprego
Pessoas vão ficando velhas com comportamento de adolescente
Ingressar em uma universidade pública não é tarefa fácil. Cursar a faculdade em uma instituição privada, para muitos, é inviável. Conseguir o primeiro emprego é difícil para a maioria dos jovens. Com tantas adversidades, muitos não sabem o que fazer. E sem incentivo da família, há muita gente que opta por protelar o momento de assumir grandes responsabilidades e prefere ficar sem ocupação.
Um estudo realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), revela que 19% dos jovens brasileiros não estudam e não trabalham. Para a psicóloga clínica Daniele Fioravante Tristão, mestre em análise do comportamento, o perfil do relacionamento entre pais e filhos, baseado mais fortemente no companheirismo, é uma das explicações para o recente fenômeno da desocupação da juventude.
''Na década de 1960, os pais tinham dificuldade de entender os filhos. Isso fazia os jovens saírem de casa mais cedo. E, para isso, precisavam estudar e trabalhar'', diz Daniele. Nesta entrevista, ela aponta as consequências negativas da desocupação e alerta: ''Muitos pais sentem dó dos filhos e não querem que eles batalhem. Mas é preciso deixar isso acontecer. Os jovens precisam ir à luta, mesmo que for para ganhar pouco de início.''
Um estudo da Organização das Nações Unidas mostra que 19% dos jovens brasileiros não estudam nem trabalham. O que explica essa realidade?
Hoje em dia os jovens sofrem menos repressão do que antigamente. Nas décadas de 1960 e de 1970 os pais tinham dificuldade de entender os filhos. Isso fazia os jovens saírem de casa mais cedo. E o caminho para sair de casa é o estudo e o trabalho. Hoje não existe tanto esse conflito. Pelo contrário. Muitas vezes os pais têm os filhos como companheiros. A pressão para sair de casa é muito menor. Por isso, uma grande quantidade de jovens se acomoda.
E quais são as consequências desse comodismo?
Depende da forma como isso é visto e trabalhado nas famílias. Tem família que encara com naturalidade, acreditando que logo o jovem vai arrumar um emprego e levar a vida dele. Mas existem famílias em que os filhos são realmente acomodados e os pais, por sua vez, fazem de tudo para trazê-los para perto deles. Isso pode dificultar a independência do jovem, que não assume responsabilidades. O fato dos filhos morarem com os pais não significa que eles não serão independentes. Muitos podem contribuir em casa. Tudo depende de como a família encara isso.
Mas se a dependência for excessiva e o jovem não tiver atitude aí fica complicado. A maior consequência é que ele pode se tornar uma pessoa insegura. O jovem pode não dar conta de ficar sozinho, sem ter os pais na retaguarda. É importante ter pais que apoiam e ajudam quando necessário, mas o jovem deve ter iniciativa. É isso que assinala a vida adulta. Caso contrário, essas pessoas vão ficando velhas com comportamento de adolescente.
Qual é o grau de responsabilidade dos pais? Eles devem obrigar o filho maior de idade a estudar ou trabalhar?
A tendência é que os pais sintam dó dos filhos. Eles não querem que os filhos trabalhem demais. Já escutei mães falando: ''Para que o meu filho vai trabalhar o dia inteiro para ganhar R$ 600?. É melhor ficar em casa.'' Pai e mãe querem proteger. Muitos não querem ver o filho sofrendo e batalhando. Mas, muitas vezes, é preciso deixar isso acontecer. É preciso ir à luta, mesmo que for para ganhar pouco de início. O jovem tem que buscar uma faculdade, um curso.
Além disso, é importante incentivar para que eles ajudem em casa, para adquirirem pequenas responsabilidades mesmo morando com os pais. A situação não deve ser muito cômoda. Desde a infância temos que ensinar a criança a fazer pequenos serviços, a ajudar em casa. Ela tem que aprender o valor do trabalho. O adolescente também. Ele deve ter alguma ocupação, tem que ter responsabilidade.
A maior parte dos jovens está parada por opção ou por falta de oportunidade?
Há jovens que estão parados por opção. Mas esse é um fenômeno das classes média e alta. A classe mais baixa tem que ir à luta, tem que trabalhar. O jovem de classe mais favorecida economicamente tende a se acomodar. Ele tem computador, internet, carro, celular, comida, roupa lavada. Além disso, existe a questão social. Hoje é muito difícil entrar em uma faculdade pública e o mercado de trabalho também está difícil. Quando se tem a oportunidade do primeiro emprego a remuneração é baixa. Esse jovem pensa: ''Por que eu vou trabalhar o dia todo para ganhar R$ 300, se eu ganho uma boa mesada dos meus pais?''
É possível dizer que existe ligação entre os números desta pesquisa e o crescimento dos índices de criminalidade envolvendo jovens?
Nós estamos falando da classe média alta. Esse tipo de criminalidade é mais difícil de acontecer nessa classe. Agora, a desocupação desses jovens pode resultar em atos de vandalismo, pois eles não têm o que fazer. Imagina um jovem que tem dinheiro para sair, tem carro e não tem que trabalhar no outro dia. Ele não tem com o que se ocupar e isso estimula o envolvimento com drogas. É uma vida de prazeres.
Qual é o tipo de investimento necessário para reduzir o número de adolescentes desocupados?
Deveria haver maiores incentivos. Já existem alguns projetos que estimulam o primeiro emprego, por exemplo. Mas a sociedade deveria oferecer mais oportunidades de emprego e remunerar melhor os jovens. Muitas vezes as vagas disponíveis exigem experiência. Mas se é o primeiro emprego o jovem vai ter experiência? Seria interessante desenvolver mais programas voltados ao primeiro emprego. O ProUni (Programa Universidade para Todos) é uma iniciativa interessante, mas ainda é bem restrito.


