Obstáculos ao mar brasileiro
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de dezembro de 2001
Jorge Ernesto Macedo Geisel 
''A verdadeira dificuldade está não em aceitar idéias novas, mas em livrar-se das idéias antigas'' John Maynard Keynes (1883-1946), economista inglês.
Os brasileiros se apegaram à continentalidade e sua borda costeira, sem pensar muito no domínio do mar. Um povo afivelado às praias e a seus encantos, mas desconectado dos oceanos, portos, navios e das profissões ligadas às estruturas comerciais, industriais e de serviços que fazem de uma nação uma potência marítima.
Infelizmente, por destino geográfico, nossas costas são pouco retalhadas e com águas pouco profundas. Por destino político, liquidamos com o Barão de Mauá com a mesma sem cerimônia que o trabalhismo e o intervencionismo estatal, mais tarde, liquidaram com a marinha mercante, os estaleiros privados e os arremedos portuários da mais tacanha burocracia imaginável.
Os portos brasileiros não foram organizados em função da prioridade operacional. Foram as reservas de empreguismo político à beira-mar, frequentemente renovadas pela oficial incompetência lacustre de Brasília.
Muito deixamos de exportar pela falta de portos aparelhados. Há minério de ferro rolado, solto nas montanhas de Minas Gerais, que não consegue chegar ao mar. Se houver estrada de ferro, esta acaba não servindo ao destino portuário compatível.
As deficiências são enormes. Equipamentos portuários de pouca capacidade, apenas enfeites jurássicos de uma orla esquecida e abusada. Não precisamos nos deter em maiores considerações a respeito dos obstáculos portuários à circulação de riquezas, existentes no País. Basta olhar o crescimento da frota nacional de transporte rodoviário, embora sobre estradas execráveis, para nos darmos conta do que aconteceu com os transportes ferroviários e de navegação de curta e longa cabotagem.
Incrível mesmo é a fatalista alienação das cidades portuárias, de seus governos e de suas populações diante dos portões trancados pelos feudos, que se adonaram dos portos, desvinculados das sociedades urbanas que lhes deram origem. Não existem canais de comunicação entre as cidades e seus portos. O que se passa intramuros, dentro dos portos, não lhes diz respeito... Uma visão política digna das feitorias.
Com relação à formação profissional de funcionários despachantes, de agenciamento e corretagem de navios, de supervisores de carga e descarga de navios, a coisa fica preta. Se não fossem os cursinhos esporádicos oferecidos pela Marinha, nada teria sido feito. Não há formação técnica para a prestação de serviços comerciais e operacionais nos portos, implementada pelo sistema nacional de ensino técnico. O mar está esquecido como fonte de renda.
Muitos conceitos foram modificados nos últimos tempos. O governo federal parece ter acordado para uma política mais articulada de transportes e de concessões à iniciativa privada. Resta fazer muito ainda: sobre os ombros de uma Marinha, que segue sempre sucateada, não pode repousar a responsabilidade unilateral de formar um verdadeiro poder marítimo. Cabe a todos repetir no
dia-a-dia os esforços para transformar a paisagem marítima das 200 milhas num espaço aproveitado em real grandeza, sem a exportação de tributos encachoeirados, de custos sociais que impedem os empregos e os lucros.
O nascimento de uma mentalidade marítima, permeando todos os campos da atividade produtiva nacional, com certeza, renderá enormes dividendos. E o som das vagas de um mar profundo terão perdido, então, o mero ufanismo tenebroso.
- JORGE GEISEL é advogado e vice-presidente nacional do Partido Federalista para o Rio de Janeiro
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