Não raro, até mesmo em certos programas da mídia, tem-se usado expressões pouco condizentes para se justificar comportamentos agressivos de indivíduos que cometem atos bárbaros, suas ações violentas acabam sendo associadas às ações dos animais. Os que delinquem são chamados, portanto, de animais. Ora, estes não são violentos, mas ferozes, só atacam para defesa, agem por instinto.

O homem se diferencia do animal porque seu destino não está traçado pelo automatismo do instinto. A sociedade humana, fundada sobre um caos, precisa dos artifícios culturais para sobreviver. Desde Aristóteles passando por Hobbes até Freud, viu-se que ''sem um olhar que transcenda a realidade, o homem cai na agonia, na atomização, no pânico. Desprovidos de ideais que produzam alguma ordenação para o mundo concreto, homens desnorteados se afogam no temor. Somos nós, indivíduos, que inventamos os universos de valores que nos permitem viver em comunidade, ou seja, assumindo compromissos. Só com valores nos tornamos capazes de prometer. De prometer e cumprir'', sentencia o psicanalista Jurandir Freire Costa.

Em oposição à barbárie, as civilizações foram inventadas como uma resposta à vulnerabilidade do corpo, ao poder esmagador da natureza e aos riscos de morte constantes a que os homens viviam. Os valores, as regras, as normas, são alguns dos artifícios que passaram a compor o arcabouço cultural de uma sociedade.

Diz Freire que quando o homem destrói este equipamento de segurança que o protege da morte, da evanescência, ele cai na mais absoluta desproteção, torna-se então, capaz de tudo, porque não é um animal cujos passos estão delimitados pelas regras de um impulso espontâneo e alheio à razão. Ou seja, os animais não têm compromissos porque para os processos naturais, não existe valor, tanto faz morrer ou viver, uma vez que tudo entra no mesmo ciclo de eternidade, segundo o olhar psicanalítico do autor.

Olhada de um observatório, a violência é um fenômeno caracteristicamente humano e sua ascendência entre nós é o resultado da destruição dos artifícios culturais que mantém coesa a sociedade. Estes artifícios não são apenas artefatos, mas a própria condição de sobrevivência da humanidade por ser através deles que se pode enfrentar a desordem e o vazio. E ainda por ser eles que delimitam a linha tênue que separa o humano do animal.

FRANCISCA VERGINIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais pela PUC/SP e docente da Universidade Estadual de Londrina e da Uninorte

mockup