Obrigatoriedade de votar não onera o cidadão
A questão da obrigatoriedade de votar vem a tona com frequência, porque existem eleitores que a rejeitam. Entrevista de sexta-feira publicada neste Jornal mostra vantagens para a estabilidade política com tal obrigação, prevista em lei. Quem opina é o analista político Leonardo Barreto, da Universidade de Brasília, ouvido pela repórter da FOLHA Herika Fondazzi. Comparecer às urnas com o largo espaço de dois em dois anos não é nenhum transtorno para os cidadãos, e se esse dever cívico lhes é imposto, a escolha dos candidatos em quem votar é livre.
Não há nenhum mal nesse exercício, e por meio dele a democracia se manifesta plenamente, sem motivo para exinguir tal obrigação, mesmo que algumas grandes nações democráticas não considerem obrigatório votar. Pela omissão, quem não vota outorga a outros a escolha dos governantes para a gestão executiva e dos representantes nos parlamentos. Esta sim é uma forma de quebra do princípio da democracia. Que se concede direitos, também exige participação.
Votar é um privilégio de cidadania, porque já se teve no Brasil período longo em que a decisão de escolha não era do povo e sim de poderes ditatoriais. E os cidadãos não gostavam desse cerceamento de liberdade. Muitos, por indignação diante da má conduta de grande parte dos políticos, talvez suponham que abstendo-se de votar eliminem esse mal ou, no mínimo, não contribuam para ele. Mas tal é um equívoco, porque outros terão que votar também por eles. Os que forem eleitos desempenharão para todos (votantes ou não) a sua função. Livrar-se do voto não significa livrar-se da escolha, porque esta ocorrerá de qualquer maneira e todos terão de legalmente aceitá-la. Se deixando de votar o cidadão não elege quem não queira, acabará tendo de aceitar o candidato rejeitado se ele for eventualmente sufragado. E existe também o argumento de que quem não vota por opção perde o direito moral de protestar contra quem for eleito e pecar em seu desempenho. Pode ocorrer de os votos não manifestados dos omissos impedirem a subida ao poder de um bom político. São muitos os pontos a considerar em defesa da obrigatoriedade de votar. Isto remete também para a necessidade de escolher um candidato, evitando o voto em branco ou nulo.
Mais do que nunca é preciso que o cidadão vote, e obviamente que vote com consciência. Se errar na escolha, este será um risco do processo, mas tal possibilidade não desaparece deixando-se de votar. A democracia também tem suas falhas mas ainda não se encontrou sistema político melhor.





