Objetivos comuns - Rubem Azevedo Lima
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segunda-feira, 01 de março de 1999
Rubem Azevedo Lima 
O que, afinal, se passa com o presidente Fernando Henrique Cardoso? Primeiro, há dias, ele explodiu em agressividade política, surpreendendo os amigos. Depois, na véspera de reunir-se com os governadores, para debater as dívidas dos Estados com a União, FHC mudou de tom e propôs uma trégua na briga com o governador Itamar Franco, a quem chamara de Joaquim Silvério dos Reis.
Apesar da mudança para melhor, ficara no ar, perante a opinião pública, certa impressão de instabilidade emocional do presidente. Ou a idéia de que ele estaria ouvindo ora conselheiros belicosos, ora pacifistas. E - quem sabe? á- para não desagradar a nenhuma dessas facções, evitou falar dos maus conselhos recebidos, adotando posição ambígua, ao invés de seguir a prática hoje comum nos Estados Unidos, de arrepender-se, perante o País, dos erros que eventualmente cometera.
Seria o caso, talvez, de FHC desculpar-se da grave insinuação contra Itamar, ao falar, de improviso, sobre a corda que enforcou Tiradentes. Sem isso, o aceno de paz ao homem que avalizara sua candidatura presidencial em 1994 soou, se não artificial, pelo menos incompleta. E, pior: FHC, um homem cordial, confundiu-se com aqueles peemedebistas que xingaram o ex-presidente do Plano Real, na convenção em que lhe negaram o direito de concorrer à indicação, pelo PMDB, como candidato ao pleito presidencial de 1998.
De resto, horas antes do aceno presidencial à pacificação, seu governo bombardeara os cofres de Minas, bloqueando R$ 17,5 milhões do ICMS, devidos ao Estado. Na véspera - queixou-se Itamar à imprensa - haviam sido sequestrados mais R$ 6,5 milhões e o ministro porta-voz do governo ainda afirmava que a reunião com os governadores não trataria do reajuste das dívidas estaduais nem da questão da moratória. Além disso, a pauta das negociações que poderia viabilizar o restabelecimento da paz com os Estados, ficou de cingir-se, por acerto entre o governo e os governadores aliados, ao exame de pequenas compensações pelo endividamento dos Estados.
A oposição poderia queixar-se das alterações macroeconômicas ocorridas no País, após a assinatura do acordo de pagamento das dívidas estaduais, como, entre outras, a elevação dos juros a 49,75%, que consagrara a recessão brasileira, inibira os investimentos, causara falências e reduzira bastante a arrecadação dos Estados.
Considerados tais fatos, os amigos do presidente - que não haviam entendido suas incontinências verbais - ficaram ainda mais confusos. Alguns acham que FHC está abalado com o impacto da crise econômica do País - possível fim do sonho da estabilidade monetária - mas outros temem que ele esteja à beira do esgotamento nervoso, em razão de problemas pessoais desconhecidos.
Por tudo isso, o gesto de paz de FHC desfez-se no ar, sem consequências práticas. Mas, como quem governa um país tem o dever de tentar resolver seus problemas, para evitar que eles se agravem, ainda se espera que a trégua presidencial - simples suspensão temporária de hostilidade entre inimigos - se torne paz duradoura entre adversários políticos, na luta pela conquista de objetivos nacionais comuns.


