O xerife do mundo - Kido Guerra
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quinta-feira, 24 de dezembro de 1998
Kido Guerra 
Os mexicanos têm um velho ditado para ironizar a própria sorte e justificar seus infortúnios. Eles dizem que o maior problema do México é estar muito longe de Deus e perto demais dos Estados Unidos. De fato, não deve ser nada fácil para o México ter um poderoso e insaciável vizinho, que cresceu territorialmente às suas custas, com a conquista do que hoje são os Estados do Texas, do Novo México, parte da Califórnia e outras áreas. É muita terra perdida, e o México acabou tendo que se conformar em limitar sua fronteira com os Estados Unidos na extensão do Rio Grande.
Em tempos de globalização, no entanto, o México não está mais sozinho em suas relações de vizinhança com os EUA e infortúnios. Aliás, todos nós nos tornamos vizinhos dos americanos, que há décadas possuem a hegemonia política e bélica do Planeta.
Depois do desmantelamento da União Soviética, então, o domínio dos Estados Unidos se tornou ainda mais evidente e indiscutível: o país praticamente é hoje o dono do mundo. Mais do que isso. Estimulado por seu poderio econômico e militar, além de sua inata vocação, passou a exercer com extrema, mas questionável, competência a função de xerife do mundo.
Depois da Segunda Guerra Mundial, o Planeta - assim como o Velho Oeste - passou a ser dividido entre mocinhos e bandidos, e os americanos, com seus aliados, são sempre os mocinhos, evidente. Como nos filmes de Hollywood.
Da Guerra do Vietnã ao incentivo de ditaduras militares de direita na América Latina - o Brasil não foi exceção. Da prisão do ex-ditador panamenho Manuel Noriega, em seu país, à invasão do Haiti para destituir um militar golpista e restituir o governo ao civil Aristide. Da invasão de Granada a uma tentativa de resgate de reféns americanos em Teerã. Da Guerra do Golfo ao mais recente bombardeio ao Iraque.
Em todos esses episódios, os Estados Unidos foram protagonistas, muitas vezes à revelia da comunidade internacional, leia-se Organização das Nações Unidas, sediada, não por mera coincidência, em Nova York.
Para entender por que tanta desenvoltura e disposição para atacar, invadir, bombardear territórios de países em desenvolvimento e matar civis inocentes e anônimos, basta perceber o sentimento de superioridade e o etnocentrismo que caracterizam as nações do Primeiro Mundo. Não seria diferente numa superpotência como os Estados Unidos.
A morte de setenta ou mais iraquianos, sem falar em milhares de vietnamitas, panamenhos, mexicanos, chilenos, argentinos, brasileiros, acaba sendo mero detalhe, consequência natural de intervenções militares destinadas a salvar o mundo do mal.
Desta vez não é apenas o mundo que está em perigo, mas o próprio presidente Bill Clinton. Por isso, os ataques a Bagdá, na véspera da votação de seu impeachment na Câmara de Representantes, foram imediatamente interpretados como uma tentativa de desviar a atenção dos americanos. Deu certo: a popularidade do presidente não pára de subir.
Daqui a alguns meses, o Senado vai apreciar e votar o pedido de impeachment de Clinton. Portanto, todo cuidado é pouco. Tio Sam está perto demais do Planeta.
- KIDO GUERRA é jornalista em Brasília


