Semana passada, na sexta-feira, a imprensa deu conta de que o líder do Movimento Sem-Terra (MST), José Rainha Júnior, disse que seus liderados iriam ‘‘para o confronto’’ com o governo federal. Isso porque o ministro de Assuntos Fundiários, Raul Jungmann, suspendeu o diálogo com os líderes do MST. Suspendeu porque os sem-terra continuaram invadindo propriedades rurais. Os sem-terra invadem porque, segundo eles, se não invadirem o governo não faz nada. Daí o governo vem e diz que está fazendo sim, e mostra seus números, e se mostra aberto à negociação com o MST e com proprietários rurais. Quer dizer, parece brincadeira de criança levada. Só que se trata de brincadeira de crianções, que pensam que o segmento social que representam deve se sobrepor ao interesse geral da Nação.
Seja lá como for, o governo federal está apenas colhendo aquilo que plantou. Fez mais ou menos aquilo que o governo estadual do Paraná também fez: não deixou clara a questão acerca dos limites da legitimidade democrática do MST. Este é um movimento social importante, sem dúvida alguma; a causa - a reforma agrária - é nobre, sem dúvida alguma; agora, a maneira escolhida para se manifestar colocou o governo federal em ‘‘xeque’’. O MST quer uma reforma agrária oficial, legal, garantida pela Constituição da República, mas viola essa mesma Constituição à medida que não respeita a proteção legal dos outros. O MST se acha no direito de escolher quais das leis brasileiras estão vigendo. Invade a segurança jurídica de todos os demais cidadãos brasileiros, com sua bandeira de suposta ‘‘legitimidade’’, e fala grosso com governantes - como se estivessem falando com tiranos, esquecendo-se completamente de que são governantes democraticamente eleitos.
O governo federal até tem razão em tentar esgotar todas as instâncias de negociação pacífica - e isso o País tem testemunhado. Porém, tanta diplomacia vem sendo interpretada, pelo MST, como se fosse um sinal de acanhamento, de fragilidade, de recuo. Salta aos olhos o senso oportunista dos sem-terra. Estamos a seis meses das eleições presidenciais, e tudo o que o presidente Fernando Henrique provavelmente jamais quereria seria um confronto armado com os agentes do MST. O impacto de um evento assim seria semelhante, dentro das devidas proporções, ao confronto entre sem-terra e policiais militares que gerou um massacre no Pará. Então o MST parece aquele guri que fica provocando cachorro preso na corrente.
Enquanto isso, os demais cidadãos, a maioria, os outros 158 milhões, aproximadamente, ficam assistindo a tudo. Assistindo e pagando. Porque os sem-terra continuam invadindo terras produtivas, depredando-as. E aí os proprietários vão e processam o Estado pelo mal funcionamento da Administração Pública em matéria policial, de segurança. E, evidentemente, ganham essas ações indenizatórias. E os cofres do dinheiro público, então, devem suportar o prejuízo causado pela inércia, omissão, sabe-se lá mais o quê, do governante.
Com esse último conflito ocorrido em Parauapebas, também no Pará, o governo estadual solicitou ajuda ao governo federal. Porque a Polícia Militar paraense decerto não tinha condições de resolver o problema da Fazenda Goiás, do qual resultou a morte de dois líderes do Movimento. Aí o governo federal ordenou o envio de tropas federais de soldados da Brigada da Infantaria da Selva, para que pelo menos houvesse respeito à lei e à ordem, na região. Sim, porque ambos os lados, os fazendeiros e sem-terra, estão armados e dispostos a iniciar uma guerra no campo. José Rainha, diante disso, levianamente, vem e afirma que o governo está radicalizando, preferindo ‘‘usar as baionetas’’.
Claro que Rainha não se importa se os sem-terra entrarem em choque com o Exército. Afinal, massa-de-manobra serve para isso mesmo. E as táticas da liderança do MST já revelaram suas reais intenções.
Qual será a reação dos outros cerca de 158 milhões de brasileiros? Estarão como alguns que estão fazendo declarações à imprensa, fartos do atrevimento do MST, fartos da indolência governamental, fartos das milícias dos fazendeiros?
A brincadeira de moleque perpetrada pelo MST está cansando. Logo, logo, vai ter gente aplaudindo a presença do Exército e pedindo mais ação. Eis aí um perigo que o Brasil não pode enfrentar, e não quer enfrentar: ter garantida a lei e a ordem, custe o que custar.

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