Soltar foguetes é uma prática imersa na cultura popular brasileira há muito tempo. Câmara Cascudo (dicionário do folclore brasileiro, Edições de Ouro) já localizava os rojões nas festividades religiosas e populares desde o final do século 17. Um costume trazido pelos portugueses, que por sua vez o assimilaram dos chineses (que entendiam de rojão desde, talvez, 80 a.C.)
No tempo do Império, além da produção local, incipiente, a munição vinha, obviamente, da China (e das Índias Orientais). Seja para celebrar, seja para zombar, lá estavam os soltadores de rojões (sentido literal, por favor). Cascudo diz que em certas regiões brasileiras, os bailes de casamento só iniciavam depois que o estourassem três foguetes, sinal de confirmação da virgindade da noiva (pode uma coisa dessa?) Novidade na região, um parto bem sucedido (um foguete, o bebê era menina; dois menino), ‘‘impossível procissão, novena, pagamento de promessa, sem foguetes’’.
Hoje, os foguetes continuam metendo seu espaço entre os sofisticados fogos de artifício feitos com alta tecnologia e disparados via computador. Festa de aniversário, jogo de futebol, (de pelada, areião ou no estádio), aprovação no exame vestibular, saída do hospital, o ganho na loteria (lato senso), ainda na festa de casamento (sem aquela conotação da confirmação da virgindade, que caiu em desuso), no nascimento do filho... Ah, os foguetes são também muito usados pelos traficantes de drogas, para avisar os consumidores da chegada de um novo carregamento.
Foguetes são tão antigos quanto os acidentes provocados por foguetes. ‘‘No Recife de 1715 os foguetes, incendiando um barril de pólvora, mataram quatorze pessoas’’ (Cascudo, loc.cit.). Para não dizer diariamente, pelo menos semanalmente, na média, hospitais especializados em queimados, na Capital, atendem um caso grave. Se pudesse verificar a incidência desses casos no País, provavelmente a média apontada pudesse ser diária. Agora, durante datas e eventos ‘‘nobres’’ o aumento percentual de acidentes com rojões é uma grandeza. Algo que certamente deveria figurar dentro de uma política pública de conscientização, tamanho o custo social e econômico da tragédia.
Não vou entrar no mérito da predileção popular de ficar olhando para cima, por 1, 15, ou 30 segundos (vá la, por um minuto que seja), vendo o estouro da pólvora. Nem na questão custo-benefício, privada ou pública. Mas note, leitor, o empobrecimento da nação com as despesas hospitalares no tratamento de alguém que se queimou soltando rojão. Mais do que isso - e aqui o prejuízo pode ser realmente incalculável -, note as consequências de um cidadão, por exemplo, ficar sem alguns dedos da mão, ou até sem uma das mãos (ou sem as duas!). E se a vítima for uma criança, que foi soltar foguetes escondida dos adultos (ou, às vezes, com o incentivo - ou no mínimo, com o exemplo - deles). Ou um adolescente, que queimou o rosto, ficando com uma deformidade permanente? E os que ficam cegos? Estou sendo catastrófico demais? Então vá perguntar às vítimas o que elas estão sentido agora. Perguntem aos pais que permitiram, ou se omitiram, ou negligenciaram, e agora estão lá, na ala de queimados de algum hospital, vendo os filhos enfaixados e no soro e perguntem o que sentem sobre a ‘‘manifestação folclórica’’
Claro que ninguém está propondo que se extinga a ‘‘cultura’’ do rojão, mas que o poder público acione seu poder de polícia para controlar e fiscalizar a indústria e a comercialização desses fogos. No último dia do ano, apesar de haver em Curitiba sete lojas autorizadas a comercializar fogos, pulularam por toda a parte vendedores ambulantes de rojões em condições duvidosas. Numerosas foram as ‘‘experiências’’ de se misturar cargas de foguetes diferentes, só pela surpresa do resultado.
A imprensa foi lacônica (ao menos, até o momento em que escrevia este texto). Cheguei a ouvir no rádio uma notícia do aumento do número de vitimas em relação ao ano anterior, mas nada. Que me perdoem as suscetibilidades alheias, mas a imprensa deveria ser contundente, pedagogicamente contundente, na divulgação dos horrores do rojão. Deveria fazer reportagens nos hospitais, mostrando o estado em que se encontram crianças, jovens e adultos - e o estado emocional da família deles -, depois da ‘‘festa’’ com foguetes. E que eles contassem como foi que seus sonhos voaram pelos ares. Deveria fazer, mas não tem feito. Até parece que a indústria de rojões é forte como a de bebidas alcoólicas ou de motocicletas cujas tragédias, frequentes, são tratadas quase que com indiferença pelos veículos de comunicação.
Sim, abalaria um pouco as vendas, sim.

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