É inegável o fortalecimento, em praticamente todos os quadrantes do universo, dos movimentos em favor dos direitos da mulher. As mulheres estão ascendendo nos setores mais diversificados da vida produtiva. No Estado de São Paulo, 40% dos 150 mil advogados são mulheres. Uma mulher, Ivette Senize, dirige a mais importante Faculdade de Direito do País, a do Largo de São Francisco, e as ministras Eliana Calmon Alves (baiana) e Fátima Nancy Andrighi (gaúcha) integram o Supremo Tribunal de Justiça. Na política, também estão ganhando espaço, menos do que o desejável. Mas a campanha eleitoral deste ano poderá ser a melhor de todos os tempos para elas.
Se mulher votasse preferencialmente em mulher, poderíamos ter uma configuração política três a quatro vezes maior do que a atual. Primeiro, porque as mulheres já somam cerca de 53 milhões de votos, quase 50% dos 107 milhões do eleitorado. Em dez unidades da Federação, o voto feminino é maioria. No Nordeste, apenas a Bahia e o Maranhão não são predominados por voto de mulheres. Elas somam mais de 14 milhões de votos, dentre os 27,20% que a região representa do total nacional.
Infelizmente, a cota de 20% de mulheres nas chapas de candidatos dos partidos não tem aumentado a participação feminina, principalmente no Congresso Nacional. Entre 94 e 98, cresceu a participação feminina de 5,49% para 5,96%, mas o número de eleitas caiu de 32 para 29 deputadas. Nas Assembléias Legislativas, o percentual de mulheres subiu de 7,8% para 9,8%. Por que o crescimento é tão pequeno?
Há pouca novidade nas respostas. A sociedade brasileira é ainda marcada por um forte tom machista. O homem ainda é considerado o mais preparado, o mais inteligente, o mais adequado para os cargos públicos. Pesquisas mostram que as mulheres preferem votar em homens para cargos mais altos, como presidente da República e governador. O voto feminino para candidatas mulheres é maior, quando a disputa é para cargos mais baixos, como é o caso de prefeituras. Nesse caso, a mulher opta pelo valor da proximidade (física e psicológica) e identificação. Ou seja, ela sente-se mais confortável em votar em uma candidata do seu sexo pela identificação de valores. As mulheres mais pobres e menos instruídas, contudo, tendem a votar em candidatos do sexo masculino, o que não deixa de revelar traços de subordinação e exploração.
O voto feminino pode ser ainda perfilizado por meio do elemento motivador da decisão eleitoral. Para a mulher, o ambiente familiar é muito importante, ou seja, os pais, amigos, marido, religião influem. O valor da simpatia e da aparência também pesa. Por isso, o voto feminino é predominantemente emocional. A taxa de racionalidade é maior nos homens. É claro que esses elementos variam de região e de ambientação sociocultural. No norte do País, que abriga 6,23% do total nacional de votos, os eleitores masculinos predominam. Aí, eles votam mais por emoção do que por lógica, pela capacidade de estabelecer critérios mais racionais.
É interessante descobrir, por exemplo, que uma região como o Nordeste, considerada como abrigo dos tradicionais coronéis (em extinção) e grupos políticos familiares (em continuidade de pai para filho, sobrinhos e netos), esteve na vanguarda da valorização política da mulher. Foi a professora norte-rio-grandense Nísia Floresta Brasileira Augusta a precursora do movimento feminista no Brasil, tendo traduzido, em 1832, a obra feminista da inglesa Mary Wallstonecraft. Foi também uma potiguar, Alzira Soriano de Souza, de Lajes (RN), a primeira prefeita brasileira a ser eleita, em 1928, mesmo tendo sido impedida de tomar posse por decisão do Senado, que anulou os votos das mulheres. Isso ocorreu quatro anos antes do decreto de Getúlio Vargas, em 1932, autorizando o voto feminino, confirmado na Constituição de 34. E foi também outra nordestina, a maranhense Joana da Rocha Santos, de São João dos Patos, a primeira prefeita a cumprir um mandato.
A saga da mulher na política brasileira, como se vê, se arrasta ao longo de quase dois séculos. Por isso, ela não pode continuar na cozinha da política. A campanha deste ano, em função de uma generalizada crise de descrença na política dos homens, pode propiciar às mulheres espaços mais amplos e confortáveis. Basta ver como elas lideram em algumas capitais.
GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista, professor titular da USP e da PUC-SP, consultor político. E-mail:[email protected]

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