O voto e o punhal
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de setembro de 2018
Jair Queiroz 
Quando pensamos em política nos dias atuais, raramente nos lembramos do significado etimológico da palavra, que nos remete aos "politikos", ou cidadãos, da "pólis", as Cidades-Estado da Grécia antiga, aos quais cabia o exercício da civilidade, visando garantir o bem estar de todos. Basta esse conceito superficial para refletirmos que essa concepção filosófica/social se tornou uma prática nefasta no passar do tempo e chegar até nós. Para os nossos concidadãos, infelizmente, política é apenas uma obrigação a se cumprir de quatro em quatro anos ao depositar o voto a alguém que se tornará seu representante, mas por quem o eleitor jamais se sentirá representado. O termo política foi apropriado por uma categoria esperta em ludibriar o populacho - salvo alguns casos raros - que promete mundos e fundos, mas raramente entrega.
E aqui estamos novamente numa corrida presidencial, ou seja, em vésperas de eleições para, dentre outros cargos, o de Presidente da República, isso após termos vivenciado um impeachment, a prisão de um ex-Presidente e de vários membros da sua corruptela política; acusações de golpe, delações premiadas, julgamentos duvidosos por instâncias superiores e muita, mas muita sujeira.
Onde estão aqueles que garantiram que nos representariam? Se bem que eu não quero ser representado por um embusteiro que depois de eleito irá defraudar o erário e rir da minha cara; não quero ser cooptado por crápulas que dilapidam o patrimônio público e entregam nossas riquezas aos seus aliados ideológicos, mentem e roubam sem enrubescer. Isso não é política, mas um câncer metastaseado em nossa sociedade.
Bem, movidos pelo senso do dever de cidadão estaremos novamente nas urnas - também suspeitas - onde depositaremos nossos votos esperando o melhor para nosso país, para nossos filhos e para nós mesmos. A campanha está acirrada e como sempre é um bom período para aprendermos novos palavrões, ofensas, sofismas e calúnias. Os candidatos frequentemente são profícuos nessas matérias. O certo é que mais uma vez teremos que escolher não o melhor, mas o "menos ruim", o que tiver propostas razoavelmente coerentes, se ao menos tiver uma. Ouviremos discursos enfadonhos sobre acabar com a criminalidade, desemprego, miséria, alavancar a economia, melhorar a educação, saúde etc, etc... Só não ouviremos novidades.
A sociedade se separa em segmentos que se identificam como representantes do conservadorismo, de um lado, os quais defendem a manutenção do status quo político/social e, de outro lado, os socialistas que alvitram uma igualdade social, a correção das distorções entre ricos e pobres. Ambos desejam o melhor, mas nesse caldo indigesto vale tudo, ou quase tudo, desde gordos financiamentos de campanha, muitas vezes advindos de fontes obscuras que comprometerão a liberdade de ação do eleito, aos debates em redes nacionais de tv com direito a gafes e ataques pessoais que são assistidos como programas de humor. Nas ruas, praças e favelas a estratégia inclui abraços e apertos de mãos generalizados. Nesse período todo preconceito se esvai e todos se tornam dignos de serem abraçados.
Enfim, a campanha segue e candidatos são levados nos ombros dos correligionários, até que do meio da multidão surja uma lâmina certeira e penetre em seu alvo. Quem prega a legalização do porte de arma de fogo, quase tem a vida ceifada por uma arma branca. O agressor, preto, pobre, aparentemente acometido por problemas psíquicos, expressa toda sua fúria contra o sistema que o exclui e não lhe dá voz. No seu desequilíbrio usa o mesmo artifício odiento que condena... a intolerância. Não sabe ele que seu tresloucado ato não mudará o sistema.
O ideal democrático dos "politikos" continuará sendo nossa utopia. Se não o conquistarmos pelo voto, jamais o conquistaremos pela lâmina do punhal.
JAIR QUEIROZ - Psicólogo, especialista em Segurança Pública
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