Está sendo flagrante a repetição da mesmice eleitoreira nessas eleições municipais. A mesmice marketeira. Por mais que a mídia tenha aberto espaço às críticas – e pode-se dizer que o palanque eletrônico foi bastante criticado – prevaleceram os clichês de sempre. Candidatos bem maquilados, falando quase que de perfil – o melhor lado, claro – o discurso pasteurizado, falando sem dizer, cores, crianças, entrevistas com populares declarando voto; novamente, os recursos presentes em qualquer curso de memorização (usando mais, positivo, afirmativo, associações inesperadas etc). Todos saíram bem nas fotografias, invariavelmente retocadas (se a tecnologia da computação gráfica faz sumir celulites e manchinhas das modelos, pode realizar milagres no semblante dos candidatos). Esses artifícios apareceram na rotulagem de candidaturas de partidos de centro, de esquerda, de direita, centro-esquerda e centro-direita. Porque o marketing político não tem bandeira nem ideologia partidária.
Se houve um ganho de mercado no ramo publicitário, não há dúvida de que o eleitor saiu perdendo. Ao menos na Capital, não se viu debates na disputa do primeiro turno. Ficamos na mesma passividade típica dos telespectadores: os candidatos dizendo o que bem entendiam, do jeito que queriam, e ninguém para lhes contrapor uma pergunta que esclarecesse essa ou aquela proposta. Por exemplo, quando um candidato anunciou a criação de 100 mil empregos, seria indispensável que alguém lhe perguntasse de onde sairia o dinheiro – haja vista que a criação de um único emprego pode custar aproximadamente R$ 1,5 mil (isso numa estimativa antiga).
Mais de um candidato prometeu construir um metrô em Curitiba, mas sem entrar em detalhes do projeto (se é que já havia projeto) – e ninguém questionou a respeito de aspectos sérios de tal empreitada, tais como o impacto ambiental, a localização, o custo-benefício, etc. Obviamente, nem o tempo disponível permitiria grandes explicações. Daí porque os debates são fundamentais para o processo eleitoral e para o amadurecimento da consciência do eleitorado. Quem assistiu ao debate entre Bush e Gore, pela disputa presidencial norte-americana, percebeu o que é cidadania madura.
Seja lá como for, sempre se evolui a cada pleito – pois votar só se aprende votando. E o saldo do aprendizado irá aparecendo com o passar do tempo, principalmente durante o desempenho do mandato dos candidatos eleitos. Mas é de se lamentar que o marketing tenha ocultado tantas informações importantes sobre pessoas, idéias e propostas. Alguns candidatos se ocultaram na sombra de padrinhos políticos, parlamentares, personalidades de renome nos partidos. Outros simplesmente não mencionaram uma única palavra sobre o ideário partidário, suas intenções gerais, o conjunto de posicionamentos sobre outras áreas da vida social e assim por diante. É indispensável que os eleitores tenham esse tipo de informações para formar seu convencimento.
Se um eleitor, por exemplo, é contra o aborto, ou a favor, ele precisa saber que poderá estar votando num candidato a vereador, ou a prefeito, cujo partido tenha a legalização, ou não, como plataforma política. Se ele detesta os liberais, ou os marxistas, precisa saber qual dessas ideologias é a do seu candidato. Porque seu voto, de repente, ainda que digitado na urna para atender a problemas locais, poderá acabar sustentando idéias com as quais não concorda, em que pese o assunto se tratar de matéria legislativa da competência do Congresso Nacional e não da Câmara de Vereadores.
Houve candidatos que simplesmente omitiram informações que os ligavam ao governo federal ou estadual; outros evitaram que as lideranças nacionais de seus partidos aparecessem, tudo por temor à transferência de rejeição. Logo, os eleitores votaram em pessoas, porém sem ter claro quais eram suas idéias, sua ideologia.
Nas cidades onde haverá segundo turno o eleitor terá a chance de aumentar o grau de consciência e certeza de sua escolha. Para isso, será necessário que acompanhe atentamente os debates (onde houver), e tente obter maiores informações sobre a as propostas dos partidos em relação a outros setores, não afetos diretamente à administração e à competência legislativa do município.
Às vezes, debaixo da pele de cordeiro pode se achar até um cordeiro.
JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba

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