O vôo triunfal de um brasileiro
Quando, cinco décadas atrás, faziam-se os ensaios para o homem voar rumo ao cosmo em busca de desvendar seus mistérios, não faltaram os que vaticinavam com o fim do mundo e com idéias de que os terráqueos estavam invandindo espaços sagrados. Os prenúncios eram funestos. Mais tarde, sob o aspecto das possibilidades técnicas, não se acreditava que o homem pudesse pousar os pés na Lua. Mas ele acabou chegando lá, e seus artefatos alcançaram pontos mais longínquos, e mais além irão, porque a corrida espacial é irreversível. Da mesma forma que os navegadores do passado singraram mares nunca dantes navegados e descobriram novas terras. Pelos mares e pelos ares, foram façanhas heróicas e idênticas, cada qual a seu tempo. Não houvesse o ser humano buscado alcançar o espaço cósmico, a humanidade não teria hoje a imagem da TV transcontinental, nem as comunicações telefônicas via satélite, nem o telefone celular, nem a internet. Porque sem os satélites (colocados no espaço pela mão humana) tais coisas não seriam possíveis. E nem se poderia ver, hoje, o astronauta brasileiro Marcos Pontes dentro da cápsula espacial acenando e apontando o dedo para a bandeira brasileira estampada em sua vestimenta. A transmissão era para o mundo mas ele pensava no Brasil nesse momento. Os dois colegas estavam circunspectos, mas o navegante brasileiro, sorridente, até aí mostrou um especial jeitinho brasileiro. A ida do patrício ao espaço custou ao Brasil 10 milhões de dólares. Uma insignificância ante tantos gastos inúteis nesta Terra da Santa Cruz, onde cinco séculos atrás um nauta português aqui aportou, depois que suas naus lançadas além-mar aqui chegaram, utilizando rudimentares instrumentos de navegação e guiando-se pelas estrelas. As mesmas que agora os três astronautas da Soyuz TM-8 miram, um pouquinho mais próximos delas. Para o Brasil, esta é uma aventura de sonhos, mas não apenas isto: é o País consolidando sua posição no programa da pesquisa espacial. Estudantes brasileiros estão fazendo, neste momento, pesquisas idênticas às que os astronautas fazem no espaço. O presente vôo é duplamente marcante para o Brasil, porque presta homenagem a outro brasileiro, Alberto Santos Dumont, o inventor do avião. Transcorrem exatos 100 anos desse acontecimento, e por isso foi denominada Expedição Centenária esta que leva mais três homens ao espaço sideral. Não é hora para discutir se há outras prioridades brasileiras como alguns questionaram porque todas as coisas devem ser feitas simultaneamente, se houver homens capacitados para fazê-las. Um dia a humanidade irá utilizar-se, muito mais, do espaço e de tudo o que estiver instalado nele. Inclusive para habitá-lo e para novas descobertas em benefício dos humanos. Ao desvendar o cosmo, o homem também se redescobre e testa potencialidades desconhecidas, como a de sobreviver em ambiente restrito ou ausente de gravidade, ingerindo alimentos sintetizados e possibilitando adaptar seu organismo a diferentes circunstâncias. A presença de um brasileiro no seleto quadro dos astronautas que subiram ao cosmos significa, literalmente, o lançamento do Brasil nas alturas. Não é apenas o ufanismo, a exaltação da pátria, os ganhos da propaganda e do que a missão representa para o Brasil de hoje e do futuro, mas a elevação da auto-estima da nação brasileira.





