Frequentemente se escuta esta história e, para quem não se lembra, em resumo, é a seguinte: diz-se que, em razão das formas anatômicas, é possível comprovar cientificamente que um besouro não possui condição alguma de alçar vôo e que ele só voaria por não saber disso.
Relembrei esta breve história na tentativa de esboçar uma resposta a um desafio que me foi posto recentemente ao comentar a conferência do geógrafo Milton Santos, proferida durante a aula do curso de Geografia da Unioeste. O desafio se trata de detalhar o que o geógrafo, durante a conferência, apontou como ‘‘forças horizontais’’ direcionadas na construção de uma globalização alternativa, não excludente, fundamentada na solidariedade e na dignidade de cada ser humano.
Creio que a resposta começa a fluir do próprio geógrafo, quando descortina possibilidades e formas de globalização fundamentadas muito mais na emoção do que na razão. A emoção, segundo o geógrafo, permitiria gestos generosos, agregadores, que levam à construção de laços de solidariedade, enquanto que a razão, via de regra, quase sempre desagrega. As horizontalidades poderiam levar a uma nova relação com a natureza, onde as necessidades humanas jamais deveriam ser esquecidas ou subestimadas.
Entendo que a capacidade extraordinária de construção de uma globalização alternativa, com base nas horizontalidades, reside justamente na percepção das capacidades e dos talentos do que estão mais próximos de nós, diferentemente de um relacionamento a milhares de quilômetros, feito pela telemática, através de redes de máquinas.
A capacidade de poder perceber uma certa ‘‘alma de besouro’’ no mais próximo, que rotineiramente conosco se relaciona, tem estado meio embaçada pelo discurso oficial da globalização. Esta globalização exalta novidades como a flexibilidade, a eficiência, a qualidade total, a competitividade, a reengenharia etc., atributos relevantes, no mundo contemporâneo, porém que escondem a assustadora exclusão social que estes mesmos qualificativos impõem.
Mesmo que uma Embraer conseguisse comprovar cientificamente que um besouro não pode voar, nem por isso deixaremos de ver besouros por aí voando e desafiando as leis da aerodinâmica. E, diante disso, faz bem refletir sobre quantos ‘‘besouros’’ nós já matamos, por perceber antecipadamente que eles estavam tramando alguma coisa relacionada a um vôo inaugural, afinal não seria da natureza do besouro articular esse tipo de coisa e, até nem carece ser cientista para perceber o quanto ele é desajeitado para isso.
É preciso admitir, no entanto, que é muito mais fácil perceber e fazer poesia sobre o gracioso vôo de uma borboleta ou o estratégico e oportuno mergulho de uma águia do que se deter a examinar poeticamente um besouro, concluindo que, apesar das evidências ele também possa alçar vôo. Daí talvez uma explicação, para a existência de tantos talentos enterrados.
Saint-Exupery, aquele do ‘‘Pequeno Príncipe’’, e que voou milhares de horas naqueles rústicos aviões antes da 2ª Guerra Mundial, escreveu em seu clássico que o essencial é invisível aos olhos, postura semelhante aquela de Javé, ao perceber no coração de Davi, filho de Jessé, na época apenas um pastor de ovelhas, os qualificativos necessários do futuro rei de Israel. (Atos 13.22).
Entendo que a possibilidade de se construir uma globalização alternativa, com base nas horizontalidades, pode começar a partir de posturas como as que tentei elucidar até aqui. É possível, no entanto, que, na discussão sobre esta questão, outras possibilidades igualmente relevantes sejam apontadas. De qualquer forma, é preciso encontrar, no discurso da modernidade, as brechas onde se possa perceber no próximo, apesar das evidências contrárias, a capacidade de voar, atributo que a aparência exigida pelo discurso oficial da globalização muitas vezes esconde.

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