Após a entrevista que concedeu ontem criticando os juros altos, o vice-presidente José Alencar, pode ser condenado como o mais novo e poderoso ''neo-radical''. O líder do PSDB, Arthur Virgílio, saiu na frente acusando-o de ''imprudente'', ''irresponsável'' e ''dizer tolices''. Já o ministro da Casa Civil, José Dirceu, preferiu cautela a tomar explicações, mas mostrou-se irritado.
José Alencar está político e tecnicamente correto. A política de juros altos deve ser utilizada para combater a inflação numa situação onde a economia esteja superaquecida ou próxima ao pleno emprego. Neste caso, é necessário segurar a demanda já que no curto prazo não é possível aumentar a oferta e os preços subiriam.
Muito diferente é a situação atual em que a economia teve uma queda de 0,1% no PIB nos três meses deste ano em relação ao mesmo período do ano passado, ou seja, estamos em plena recessão com o desemprego batendo recorde. A mesma situação existe nos EUA, na Europa e no Japão, mas lá as autoridades monetárias reduzem os juros e elevam os gastos públicos para tentar reverter a tendência de crise. Será que os nossos economistas são ''do contra'' ou aprenderam tudo errado?
A verdade é que o Brasil foi jogado pela dupla de Fernandos (Collor e FHC) e economistas representantes dos interesses do grande capital externo na ''farra'' da importação, do endividamento externo e da privatização. A necessidade de honrar esses compromissos tornou o país prisioneiro do crédito especulativo de curto prazo e do juro alto. Mas estas políticas não resolvem o problema, só agravam, pois não há superávit primário e recessão que dêem conta. Pagamos apenas parte dos juros e assim garantimos crédito para novas dívidas. O resultado já conhecemos, a relação dívida/PIB dobrou e a carga tributária aumentou aproximadamente 50% do Plano Real para cá.
Para sair do desemprego e da recessão precisamos de muito investimento privado e público. Sem juros baixos não haverá investimento suficiente, mas nenhuma política ''gradualista'', ''monetarista'' ou ''conservadora'', será capaz de reduzir os juros de forma consistente e estabilizar ou diminuir a relação dívida/PIB. Isto pode ocorrer por um curto período de tempo, mas qualquer acontecimento externo pode gerar uma crise de confiança dos investidores internacionais, levando a uma fuga de dólares e disparada da taxa de câmbio, forçando a nova elevação dos juros. Existem muitos exemplos: a crise mexicana em 1994, a crise dos ''tigres asiáticos'' em 1997, a crise da Rússia em 1998, a nossa em 1999, a Argentina em 2001 e, por último, a Guerra do Golfo.
Já que não temos outra alternativa técnica, só nos resta uma saída política. Quando o cobertor econômico é curto, e não dá para cobrir os pés e a cabeça, alguém tem que perder. José Alencar foi corajoso e coerente, quem deve perder são aqueles que sempre ganharam, os banqueiros e as concessionárias do serviço público privatizado, que tiveram suas tarifas elevadas bem acima da inflação e ainda nos expõem a problemas como o ''apagão''.
A sociedade brasileira precisa mesmo realizar uma ''cruzada contra os juros altos'' como disse o presidente em exercício. Urge criar um grande movimento nacional pelo desenvolvimento econômico e social. Fome zero, desemprego zero, se faz com desenvolvimento já.
SINIVAL OSORIO PITAGUARI é professor do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Londrina

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