Ruy FabianoO vice e
os votos
A propósito de pesquisa publicada pela revista IstoÉ desta semana, atestando que, se mudasse seu companheiro de chapa - colocando Antonio Carlos Magalhães no lugar de Marco Maciel -, Fernando Henrique venceria já no primeiro turno, cabem algumas considerações.
A primeira é que essa não é apenas uma questão contábil. A escolha do vice, conforme o demonstra fartamente a história recente e remota do País, foi sempre ponto delicadíssimo, foco de monumentais dores de cabeça quando negligenciado ou subestimado.
Para não recuar muito, basta lembrar os vices dos anos 50 para cá. O vice de Getúlio, Café Filho, tornou-se foco de aglutinação dos conspiradores antivarguistas, que levariam o presidente ao gesto extremo do suicídio, em 1954. A legislação eleitoral da época não vinculava o vice ao presidente. Elegia-se quem tinha mais votos.
Assim, o vice da chapa adversária poderia acabar eleito. Foi também o caso de João Goulart na eleição vencida por Jânio Quadros, em 1960. O vice de Jânio era Milton Campos, mas Jango obteve mais votos e elegeu-se. Tornou-se uma pedra no sapato do titular, que renunciou na certeza de que inviabilizava a posse do vice e garantia retorno em bases mais vantajosas. Não deu certo e Jango tomou posse.
Nos governos militares, o vice era uma abstração. O poder estava concentrado no sistema militar. No entanto, na primeira fresta de democracia que se abriu, o governo Figueiredo, o tradicional choque entre presidente e vice voltou a se registrar. Figueiredo e Aureliano Chaves não se cumprimentavam.
No governo Sarney, o vice que virou titular, o conflito estabeleceu-se com o seu sucessor imediato, o presidente da Câmara, Ulysses Guimarães, que se tornou uma espécie de eminência parda.
No governo Collor, o vice Itamar foi peça-chave no processo de impeachment, tornando-se inimigo definitivo do titular, a quem sucedeu. Fernando Henrique, eleito por uma coalizão, tinha tudo para protagonizar esse tradicional conflito. Seu vice, afinal, não era de seu partido, nem tinha com ele qualquer intimidade.
Apesar disso, tornou-se um de seus melhores colaboradores. Maciel é discreto, não disputa influência, não tem avidez de mando, nem tromba de frente com o titular. Mais: tem ativa influência política, o que possibilita que preste serviços importantes na área parlamentar.
O senador Antonio Carlos Magalhães, presença política bem mais esfuziante, assusta exatamente por isso. Com ele, Fernando Henrique sabe que pode até eleger-se já no primeiro turno. Só não sabe se terá condições de governar. Aliás, tem quase certeza de que não. O perfil de ACM definitivamente não é o de um coadjuvante. Nasceu para mandar.
ACM faz lembrar outro vice, o primeiro da República, o marechal Floriano, de cujo incômodo e tirânico convívio o marechal Deodoro só se libertou pela renúncia. Fernando Henrique não tem nada de Deodoro, é certo; mas ACM, sem dúvida, tem muito do ‘‘marechal de ferro’’.

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