''Não sei, não participei, isto é calúnia, é intriga dos inimigos políticos'', e assim por diante. Estas são as coisas que se ouve de envolvidos nas denúncias do mais recente escândalo da administração pública: o dos sanguessugas beneficiados pelo negócio das ambulâncias superfaturadas. Quase 60 parlamentares integrantes da lista são investigados pelo Supremo Tribunal Federal, de um total de 112 sob suspeição, a maioria pertencente à base governista aliada. E mais os titulares de nada menos que 502 municípios que receberam recursos dessa máfia. Só no Paraná são 50, mas Mato Grosso é campeão, com 111. Este o episódio negro do momento, perfazendo um extenso corolário de roubalheiras que já se perdem na memória do povo, de tantas que são. Segundo a Polícia Federal, essa organização agia desde 2001, mas a revista ''Época'' diz que o esquema começou em 2003, dentro do Ministério da Saúde, comandado na ocasião pelo ministro petista Humberto Costa, agora pedindo votos para ser governador de Pernambuco. A empresa intermediadora era a Planam, do empresário Luiz Antonio Vedoin, que agora fornece nomes à CPI instalada pelo Congresso. Pelo depoimento da ex-servidora do Ministério, Maria da Penha Lino, 283 parlamentares tinham algum tipo de relacionamento com a Planam, e se a empresa é o núcleo desses negócios fraudulentos imagina-se que não há inocentes entre os que ciscavam ao seu redor. Por ora, fala-se num rombo de R$ 110 milhões de dinheiro público oriundo do Ministério e originado de emendas ao orçamento da União feitas pelos parlamentares envolvidos. De sua vez, o ex-ministro declara o que se esperava: nada viu e nada sabe, lembrando filme já muito rodado e conhecido, mas confirmou que um dia recebeu em seu gabinete o empresário Vedoin. Para que fim, não se sabe. Todas as investigações correm em segredo de Justiça. Espera-se, no caso dos deputados e senadores, que a coisa não fique apenas no envio de seus nomes ao Conselho de Ética, mas incumbe cassá-los e exigir que eles e os demais culpados devolvam os valores do superfaturamento. Algo tão difícil de acontecer no Brasil, muito especialmente a recuperação dos dinheiros subtraídos. O esquema funcionava mais ou menos assim: a Planam propunha aos parlamentares que apresentassem propostas orçamentárias destinadas à compra de ambulâncias pelas prefeituras, e se encarregava de contemplá-los devidamente, assim como aos prefeitos, mediante o adicional do sobrepreço. Algo em proporção menor semelhante às intermediações do esquema de Paulo César Farias, o PC do Governo Collor. Tal abuso, como todos sabem, chegou a ponto insustentável e culminou com a cassação do presidente Fernando Collor e com o misterioso assassinato de PC. Tristes tempos, amargos quanto os que se vive agora no Governo Lula.

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