O VERDE AMEAÇADO
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de março de 2002
Ana Margarida Setti Rosa Especial para Folha 
A ameaça que paira sobre o verde de Londrina, colocando em risco o delicado equilíbrio entre progresso e qualidade de vida, deve-se, particularmente, ao descaso com que as autoridades municipais vêm, ao longo dos últimos anos, tratando a questão ambiental, de fundamental importância não só para a cidade, como para o País e para o planeta. De acordo com dados de 1999, divulgados pela Companhia de Desenvolvimento de Londrina (Codel), a cidade conta com 7.711.227,3m2 de área verde, o que resulta em 22,2m2 por habitante, um índice considerado acima da média, já que o preconizado pelos ambientalistas, visando preservar a qualidade de vida em áreas urbanas, é de 16m2 por habitante. Esse poderia ser o bom começo de uma história de cidade em equilíbrio com seu meio ambiente.
Poderia, já que nos 13 mil quarteirões, que definem o perfil urbano de Londrina, resistem ainda, e são considerados como verdadeiros tesouros ecológicos, mais de 100 pequenos rios riachos, arroios, nascentes , protegidos pela vegetação de fundos de vale. Essas extensas áreas verdes, contudo, fundamentais para a manutenção do equilíbrio ambiental, vêm enfrentando há décadas um processo contínuo de degradação, sendo irregularmente ocupadas e indevidamente usadas como depósito de lixo e entulho e como dasaguadouro de esgotos clandestinos.
As cerca de 300 praças de Londrina, por outro lado, que poderiam se configurar como o contraponto florido dessa extensão verde, encontram-se visivelmente deterioradas, vítimas que foram e ainda são da manutenção precária (ver texto na página). Nas ruas, a arborização escasseia, tendo sido erradicadas 3 mil árvores no ano passado, por conta de doenças ou de inadequação da espécie vegetal à área em que havia sido plantada.
Para o secretário Luiz Eduardo Cheida, da Secretaria do Meio Ambiente (Sema), extinta Autarquia do Meio Ambiente (AMA), a degradação do verde na cidade explica-se por um conjunto de fatores. Entre eles, está a cultura da árvore abatida ou, mais especificamente, da peroba abatida, que implica entender o progresso como derrubar a mata e construir uma cidade. Essa era a cultura dos pioneiros, há mais de 60 anos, mas que persiste até hoje, apesar do conhecimento acumulado sobre ecologia. Cheida comenta: Isso pode ser observado quando o comerciante reclama porque a copa da árvore está escondendo o letreiro de sua loja ou a dona de casa reclama porque as folhas da árvore sujam a calçada. -
O descaso com o verde, contudo, não pára por aí. De acordo com Cheida, a essa cultura tão entranhada em nosso jeito de ser urbano, juntam-se a omissão das autoridades e políticos em geral, que não dão à questão ambiental o valor devido; a ação de loteadores e especuladores imobiliários que, movidos pela ambição predatória, avançam por espaços que deviam ser preservados, e a pobreza, uma questão social que afeta profundamente a ambiental.
Nesse contexto adverso, cabe questionar a ação da própria autarquia, criada em 1993, para cuidar justamente de todas as questões referentes ao verde da cidade. A justificativa apresentada para uma ação modesta, em relação a tão vastos problemas, é a falta de recursos. Com uma dotação de R$ 2 milhões para este ano, o equivalente a 0,5% do orçamento municipal, a Sema centra forças nas parcerias com a iniciativa privada, por meio, por exemplo, do projeto Adote um Jardim. Mediante contrapartida publicitária nos locais selecionados, empresas adotam canteiros, praças ou fundos de vale, para promover a conservação da área. Atualmente, segundo informações da Secretaria, 70 empresas são responsáveis por 90 canteiros de avenidas e rotatórias da cidade.
A Sema busca, igualmente, estimular a educação ambiental, desenvolvendo projetos participativos, como 1 milhão de árvores para Londrina e promovendo visitas monitoradas de estudantes de 1º grau ao Parque Arthur Thomas. A Agenda 21 de Londrina, definida na 1ª Conferência Municipal do Meio Ambiente, realizada no ano passado, também é parte dessa idéia. O documento identificou os princípios que devem nortear a política do meio ambiente do município e relacionou os problemas prioritários que precisam ser resolvidos.
Não há, entre os moradores de Londrina, quem não aprecie a sombra propiciada pelas árvores, a beleza de praças bem cuidadas, ou a manutenção dos rios e dos vales verdes que os circundam. Tudo isso, no entanto, está ameaçado.


