O horário de verão deveria ter terminado hoje, voltando os relógios, nos Estados cobertos pela medida, ao fuso horário normal. É o que estabelecia a portaria do Ministério das Minas e Energia que determinou o horário de verão desta temporada. O horário especial deveria acabar hoje porque, nesta época, o dia já está nascendo mais tarde e a noite chega mais cedo. O ano letivo de 1º e 2º Graus foi antecipado pelo novo calendário escolar, e também por isso o horário de verão deveria terminar hoje. Mas, inesperadamente, o Ministério decidiu prorrogá-lo até 1º de março. Motivo: sérios problemas de abastecimento no Rio de Janeiro, onde na segunda quinzena de fevereiro se gasta uma cota extra de energia por causa do maior e mais luminoso Carnaval do mundo.
Que o horário de verão propicia uma valiosa economia de energia elétrica é indiscutível e comprovado. Mas que não é a solução para os problemas energéticos nacionais, servindo apenas de paliativo, é algo que salta aos olhos. O problema que existe hoje no Rio de Janeiro não é decorrente apenas de um aumento do consumo de luz, mas de uma série de outros importantes fatores. Prorrogar o horário de verão, pura e simplesmente, por mais alguns dias - ou semanas, ou meses - não é solução.
O Brasil inteiro vive sob a ameaça de um blecaute, em consequência da falta de investimentos na produção de energia e do abandono de projetos alternativos. Também tem parcela de culpa a população, que desperdiça energia em casa sem se dar conta disto, e até os órgãos e empresas públicas, que raramente apagam a luz ao fim do expediente. O desperdício agrava os problemas de abastecimento nos horários de pico, quando a ameaça de blecautes é maior.
Há mais de 10 anos os especialistas vêm advertindo sobre o estrangulamento no setor, devido ao crescimento natural do consumo e da falta de investimentos na geração de energia. A recessão do final dos anos 80 e início dos 90 acabou ‘ajudando’ ao reduzir a demanda global da economia. Uma ajuda efêmera, porque somente adiou a chegada do caos. Agora, estamos à beira disso, e é preciso fazer bem mais do que remendos como o horário de verão para escapar dele.
Na verdade, estamos pagando agora pelo que não fizemos nos últimos 20 anos. E algumas ex-estatais de energia agora privatizadas estão em sérias dificuldades para aumentar ou somente restabelecer sua capacidade produtiva. Neste aspecto, o programa de privatizações ainda vai demorar para produzir resultados. No entanto, não podemos cruzar os braços e esperar.
Há meios de produzir energia sem necessariamente construir hidrelétricas, caras e demoradas. Para isso é preciso fazer pequisas e estudos mais profundos, o que tem sido descurado nos últimos anos. E os horários de verão acabam sendo contraproducentes porque os governos ficam conformados com a economia obtida e satisfeitos com o alívio da pressão sobre o sistema.
As alternativas existem. Em Pitanga, no Paraná, foi encontrado gás natural, que, com tecnologia moderna, é uma fonte de produção energética barata e ‘limpa’, isto é, sem agressão ao meio ambiente. A construção de uma termoelétrica a gás é muito mais rápida e barata que a de uma hidrelétrica, e não inunda nada nem expulsa ninguém de suas terras. Com esta e outras alternativas disponíveis o desafio pode ser vencido. Sem energia, é sempre imperativo repetir, não existe saída para o crescimento do País. E sem pesquisas e criatividade, vamos ficar todos no escuro.

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