O velório - Deolindo Alves Costa
O velório
Deolindo Alves Costa
Foi preciso a gente pensar em morte, Dia de Finados, para que eu entendesse por que não gosto de velório e muito menos de ir ao cemitério. Gozado que sempre tive ligações próximas com cemitério. Da mesma forma como pensa o amigo Cristiano, também concordo que devemos ter medo é dos vivos e não dos mortos.
Interessante que sempre me apaixonei pelo dia 1º de novembro, o Dia de Todos os Santos. Não sei por quê. Quem sabe só para ver o circo pegar fogo. É isso mesmo. O neguinho gasta no boteco e manda pendurar a conta e quando o vendeiro fica nervoso e vem cobrar, ele sai debochando: Calma, calma, eu pago no Dia de São Nunca. Pois dia 1º é Dia de São Nunca. Se é Dia de Todos os Santos, tem de ser Dia de São Nunca.
Recordo que ainda menino estava lá em frente ao cemitério, com balde de água na mão, escova, brocha e tinta. E vamos trabalhar. Lavava e pintava túmulos. Reformava as coroas de latão. Limpava as sepulturas e ainda sobrava tempo para vender flores, velas, coroas reformadas e tudo o que pudesse atingir a saudade dos visitantes.
Bom tempo aquele. Ainda não havia um mercado organizado como hoje. No Dia de Todos os Santos e Finados dava para encher a carteira. E eu brincava com a meninada, e corria atrás dos japoneses para ver se eles deixavam alguma coisa para o defundo. Se fosse dinheiro, venha para cá, mas comida a gente deixava sem tocar.
Finados realmente é um grande festival. Com perdão dos que vão ao cemitério para chorar os seus mortos, mas que Finados parece com o Independence Day, não há a menor dúvida. Gente se acotovelando por todos os lados. Crianças correndo, chorando, gritando. Mães reclamando, ralhando, berrando, ameaçando bater. Pais desinteressados, olhando para os lados, principalmente a passarela das mulheres bonitas. Os vicentinos (que magnífico trabalho!) humildemente pedindo pelos pobres. Os cristãos em orações, acendendo velas, quase incendiando o Cruzeiro. Muçulmanos, budistas, israelistas, os de todos os credos, rezando com alma e coração, numa forte demonstração de amor e recordação do ente querido.
E apesar de tudo isso, não gosto de Finados e tampouco de cemitério.
O lado alegre do festival, sem dúvida, são as barracas vendendo de tudo: cachorro-quente, empadinha, pastel, bebidas em geral. Tem sempre alguém preparando espetinho, grelhando coxas de frango. O carrinho de frutas desafia qualquer norma de higiene, e toma pedaços de melancia. O calor de novembro promete muita venda de sorvete. No entanto, o grande vilão do Dia de Finados é a floricultura. Quem não comprou antes ou não trouxe de casa, vai morrer nas mãos dos vendedores. Qualquer raminho de flor de defunto custa uma fortuna.
O ponto alto é o encontro de parentes e amigos. Pedro, que bom encontrá-lo. Como vai a comadre? Nem é bom falar. O quê, morreu? Nada disso. Pegou uma constipação daquele que o peito responde na cacunda. É uma ronqueira só. E vão se desfilando as histórias.
Mas porque é mesmo que eu não gosto de cemitério? Aos poucos, fui recordando. Faz muito tempo. Londrina crescia desordenadamente, ainda era uma cidade bucólica. A Avenida Rio de Janeiro, pelo lado do cemitério, não tinha calçamento e o cemitério não tinha muro. Apenas uma cerca de balaústre. Era o tempo em que leiteiro e padeiro entregavam pão e leite nas casas. E os carrinhos vendiam miúdos: rabada, língua, fígado, frango caipira.
Foi num inverno que morreu o seu Tobias. Ele era um velho amigo de nossa família. Como não havia as facilidades de hoje para o transporte, chegou a noite e não vieram todos os seus filhos. Ora, não se podia enterrá-lo sem o último adeus dos filhos. O jeito era esperar um pouco mais. Só que ele não podia ficar sendo velado em casa, porque já corria bom tempo de sua morte e não havia lugar apropriado. A solução era deixá-lo no necrotério do cemitério até o dia seguinte. E foi o que fizemos.
Até à meia-noite, os amigos e parentes ficaram guardando. Depois, cada um foi para casa e sobramos apenas eu o Aldo. Resolvemos guardar o finado Tobias. O frio estava forte. Uma névoa cobria o campo santo. Ficamos lá contando histórias. Depois compramos um litro de vermute e bebericamos um gole aqui e outro mais e deixamos o tempo correr. Não dava nem para esticar as pernas. O frio batia forte e a neblina cobria todo o cemitério.
Eram quase 5 horas e o nosso estômago reclamava. Foi quando o Aldo perguntou: Está ouvindo? Ouvindo o quê, respondi. Ouça. Blém-blém-blém. Parecem sinos, comentei. É o padeiro. O som do chocalho avisando que tem pão quente. Não foi preciso mais nada. Com aquela fome, colocamos uma espécie de toalha ou pano sobre a cabeça para nos defender da névoa fria e saímos correndo do necrotério, no centro do cemitério, rumo à Avenida Rio de Janeiro, por onde vinha o carrinho de pão. E aos gritos fomos chamando: Padeiro, padeiro!.
Naquele dia, todas as casas da Rio de Janeiro, em frente ao cemitério, ficaram sem pão. O padeiro, vendo aqueles dois vultos que se aproximavam gritando, pensando que era alguma alma penada, deu relho no seu burrinho e a carrocinha se escafedeu, deixando uma nuvem de pó. O pobre homem nunca mais foi entregar pão de madrugada com a sua carrocinha.
- DEOLINDO ALVES COSTA é empresário em Londrina





