O velho e o novo - Hélio Doyle
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de fevereiro de 1999
Hélio Doyle 
O embaixador Rubens Ricupero abre seu último livro, O Ponto Ótimo da Crise, com uma frase do marxista italiano Antonio Gramsci: A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não consegue nascer; nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece.
A política econômica que leva o País à recessão, ao crescente desemprego, ao endividamento absurdo e à total dependência ao capital especulativo internacional é o velho que está morrendo. Mas muita gente não está entendendo isso e outros fingem não entender. Aproveitam-se porque o novo não está conseguindo nascer.
Até porque ainda não se tem clareza do que será esse novo e de onde virá. O País ainda está submetido ao Pensamento Único, tão bem definido por Luiz Fernando Veríssimo, e muitos não conseguem enxergar outra perspectiva, uma alternativa. Dá-se como verdade absoluta que, fora da submissão a Washington e ao FMI e da perda da soberania nacional (que coisa mais antiga, dirão), não há saída.
O velho que morre não pode ser apenas a política cambial teimosamente mantida para assegurar a reeleição do presidente da República. Foi bom tê-la mudado, mas é pouco. Tem de ser muito mais do que isso: é preciso sepultar a doutrina que ignora o homem e substituí-la por outra que o coloque mesmo, não retoricamente, em primeiro lugar. Outra em que os indicadores macroeconômicos não sejam mais importantes que os indicadores sociais.
Há quem ache que o novo poderia ser também a redução das taxas de juros, ou seja, o contrário do que os Estados Unidos e o FMI mandaram fazer e nossa obediente equipe econômica (nossa?) está cumprindo. Outros propõem que se vá além dos juros e sejam estabelecidos controles para o fluxo de capitais.
O embaixador Ricupero chama a atenção para as experiências de países que têm conseguido passar ao largo da crise provocada pelos especuladores justamente por não depender tanto deles. Ele costuma citar a Índia (economia capitalista) e a China (economia socialista de mercado). Outro exemplo sempre lembrado é o da Malásia.
Muito já se falou dos aspectos positivos de uma crise, do que ela possibilita em termos de se pensar soluções novas e aplicá-las (não vale a pena falar em criatividade, a palavra ficou gasta tantas vezes tem sido impunemente usada para se referir a coisas sem qualquer criatividade). A crise nos obriga a sair da letargia e buscar fórmulas para superá-la.
O problema dessa nossa crise é que o Pensamento Único procura impedir que se pense em algo novo e diferente. Uma política econômica que dê prioridade ao desenvolvimento sustentável do País, por exemplo. Incompatível, pois, com os altíssimos juros e, ao contrário da política recessiva atual, promotora de empregos. Que proteja a produção nacional - como fazem os países que nos cobram o contrário - sem cair no isolamento suicida.
Ou um ajuste das contas baseado na maior arrecadação, não no corte burro de despesas. Não arrecadação confiscando a aposentadoria de funcionários públicos ou taxando ainda mais o assalariado, mas sobre o capital especulativo e as fortunas (o projeto que o presidente hoje renega). E, claro, atacando os sonegadores que se beneficiam do criminoso desmonte da máquina de arrecadação e fiscalização tributária.
Podemos ter uma política econômica em que ninguém pense em cortar recursos para saúde, educação, ciência e tecnologia. Cortar dinheiro para a área social e provocar mais desemprego em um país com os índices de pobreza e miséria como o Brasil e com os péssimos indicadores sociais que temos, é crime de genocídio.
Bem, e apesar de ser meio fora de moda falar em nação, quem sabe uma política econômica que não faça do Brasil um imenso Porto Rico? Não custa tentar, pois para muitos, o novo é adotarmos o dólar como moeda, submetermo-nos ao Federal Reserve e esquecermos de vez essa bobagem de sermos independentes.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília


