O valor da coerência - Rubem Azevedo Lima
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terça-feira, 29 de dezembro de 1998
Rubem Azevedo Lima 
O homem público se perde, em geral, mais pelo que diz do que pelo que dizem dele. Por isso, uma palavra em falso, reveladora de incoerência, pode significar, hoje, ameaça maior ao êxito de um projeto político do que o pior ataque dos adversários. Não foi por acaso que o presidente Fernando Henrique Cardoso fez, há tempos, um pedido sutil a seus críticos: esqueçam tudo o que eu disse ou escrevi no passado.
A partir desse apelo, qualquer eventual incoerência, entre os escritos ou ditos de FHC e seus atos atuais, estaria, em princípio, protegida pela ressalva presidencial. Ao apagar, preventivamente, as principais características de seu passado político, o presidente, na verdade, livrou-se da hipótese de ser pego pelos críticos, em função do que escrevera ou dissera, quando ainda não governava o país e, simples oposicionista, usava, como é natural, o estilingue contra a vidraça dos governantes.
Evidentemente, uma coisa é falar ou escrever sobre questões políticas, econômicas e sociais, na oposição; outra, muito diferente, é fazer o mesmo, sentado na curul presidencial, sob o peso da realidade, inimaginável pelos que estão diante dela, mas não conhecem todas as suas complexas circunstâncias. Num clássico da filmografia francesa - O cais das sombras, de Jacques Prévert - certo pintor, à beira da alucinação, explica, de maneira lógica, aos que estranhavam os quadros fantásticos que ele pintava, o que representava a sua pintura: Não é a realidade, mas o que está por trás dela.
As realidades, no caso do poder, que aparentemente norteiam as ações daqueles que o detêm, não seriam as lucubrações fabulosas, mas os pequenos nadas e os imensos compromissos nem sempre percebidos pelos que estão fora do círculo das decisões. Assim, os fatos e aspectos que envolvem tais realidades têm uma lógica mais racional do que a do pintor de Cais das sombras. Nem isso, porém, tornaria menos chocante, para os governados, a incoerência entre as ações de um governante, praticadas depois dos apelos feitos para esquecerem o que escrevera e falara no passado.
Ao apor sua assinatura, sob os termos de uma nota redigida pelos governos dos países do Mercosul, contra a extradição de Pinochet para a Espanha, pedida então pela justiça inglesa, quem falava não era o senador Fernando Henrique, mas o presidente do Brasil. Que, na ocasião, até condenou informalmente as ditaduras. Ainda assim, porém, nesse documento ele falou em respeito à soberania dos países, embora, no caso do Chile, o atingido pela justiça fosse um ex-ditador. Mal sabia o presidente o que o futuro lhe reservava em relação à defesa desse princípio. Dias depois, sem autorização da ONU, os Estados Unidos e a Inglaterra bombardearam o Iraque, um país soberano. Pois a nota brasileira, sobre o novo episódio, ignorou o princípio invocado em favor de Pinochet, e até lamentou que os iraquianos tivessem - supostamente, diga-se - dificultado a tarefa da comissão que buscava armas proibidas no Iraque. Assim, o Brasil reviu os termos da nota sobre o ex-ditador, no tocante ao respeito devido às soberanias nacionais.
Ao contrário das abstrações da política interna, a preservação desse valor, na política externa, é fundamental. A coerência dos que o defendem, face às tropelias do poder militar e econômico dos países ricos, é mais valiosa do que as conveniências do pragmatismo. É um escudo moral contra os abusos dos poderosos.


