Experimente, caro leitor, facilitar com qualquer tipo de poder que você detém. Pode ser, por exemplo, seu emprego, que mesmo lhe dando uma sofrível possibilidade de sobrevivência, se periclitar por qualquer motivo será alvo imediato de concorrentes sem conta que rondarão seu espaço na ânsia de ocupá-lo. E a concorrência prossegue em todas as esferas da vida, inclusive, na amorosa. Bobeou, vacilou, perdeu. Esta é a lei da selva humana, que sempre funcionou de forma implacável em todas as sociedades e em todos os tempos, não sendo, portanto, inerente ao sistema capitalista como podem pensar alguns incautos.
Transportemo-nos agora para a dimensão da política, que tem no Estado a grande arena onde se travam as lutas pelo poder no sentido de se obter domínio não apenas com relação ao âmbito individual, mas sobre as amplidões do coletivo. Então perceberemos com maior clareza as ações que comandam o vale-tudo da busca do poder. São elas: conquistar, manter, defender, ampliar, reforçar, abater, derrubar.
No momento, o cenário da corrida aos cargos mais elevados da República, incluindo a cobiçada presidência, é a demonstração cabal de que os fins ‘‘justificam os meios’’, como constatou em 1513 o mestre da política, Nicolau Maquiavel. Afinal, nada muda em essência quando se trata da conquista, pois parafraseando Shakespeare, ter ou não ter poder, eis a questão.
O caso de Roseana Sarney foi sintomático. Ia ela se elevando velozmente nas pesquisas nas asas de um bom marketing. R$ 1,34 milhão estava bem guardado no cofre da empresa Lunus, onde a governadora do Maranhão é sócia majoritária e seu marido Jorge Murad frequentador diário. Ninguém sabia ou ligava para a dinheirama. De repente, não mais que de repente, a Polícia Federal aparece no escritório da empresa, surge à luz do dia a enorme quantidade de cédulas de R$ 50,00 e a origem do dinheiro se transforma em escândalo. A explicação de Murad, de que a razoável quantia seria proveniente de doações para a campanha da esposa, não convenceu e, apesar de boa parte dos leitores não estar a par do ocorrido, tudo indica que a candidatura de Roseana sofreu sérias avarias provocadas pelo episódio.
Muito se falou sobre a inconsistência política da governadora do Maranhão. Analistas políticos e, sobretudo adversários, afirmaram que ela era um factóide ou produto do marketing. Se existe uma dose de verdade em algumas dessas opiniões, o fato é que Roseana havia subido rapidamente nas pesquisas de opinião, ameaçando Lula, o eterno candidato do PT, e impedindo a ascensão de José Serra, o sucessor do presidente Fernando Henrique e de outros pré-candidatos. E como, verdade seja dita, vários dos pretendentes à presidência também são marcados pela inconsistência política e se apoiam no marketing, só mesmo um bom escândalo baseado em fatos verdadeiros ou falsos podiam eliminar Roseana da disputa. Em todo caso, quem lucrou mais com a derrocada da governadora, neste pesado jogo do poder?
O senador José Sarney, que discursou esta semana como pai indignado, esquecendo-se das enormes vantagens obtidas pelo PT com o escândalo, culpou o presidente Fernando Henrique e os tucanos pelo ocorrido. Ao mesmo tempo, Sarney exagerou na retórica quando comparou o governo FHC ao de Alberto Fujimori, no Peru e fez um paralelo entre a filha e a candidata colombiana sequestrada pelas Farc, ou aos candidatos que foram assassinados no México. Não contente, pôs sob suspeita as eleições brasileiras deste ano, sugerindo o envio de observadores internacionais da Organização dos Estados Americanos (OEA) para fiscalizá-las.
Em suas acusações e críticas, só faltou o ex-presidente dizer, como o relator da ONU para o Direito à Alimentação, Jean Ziegler, que o governo federal esteja cometendo ‘‘genocídio’’. A ONU, como se sabe, é um tremendo cabide de emprego e este senhor, que tanta bobagem falou em sua rápida passagem pelo Brasil, é destes estrangeiros que nos vê das alturas do avião, dá uma volta em Brasília e outra no Rio de Janeiro e sai com um diagnóstico sobre nosso País. Já o senador Sarney, mesmo movido pela frustração, deveria conhecer melhor nossa realidade. Afinal, foi presidente da República ainda que por obra e graça da sorte, tendo, aliás, no final do seu mandato, nos deixado a herança de uma inflação de 80% ao mês.
Prossegue a campanha, com pré-candidatos (ainda não foram feitas as convenções) a todo vapor. Muita água ainda vai rolar debaixo da ponte, mas possivelmente continuaremos a assistir o vale-tudo de pesos pesados onde não faltarão golpes baixos. É a lei da selva humana.
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária

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