O Vale do Ribeira vale - Omar Akel
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de março de 1999
Omar Akel 
Volta à discussão a pavimentação da BR-476, entre Bocaiúva do Sul e Adrianóplis, no Paraná. Com uma extensão de pouco mais de 90 km, esta rodovia tem se caracterizado pela repetida programação e desprogramação de seu revestimento.
Neste momento em que, pressionado pela crise, o governo federal busca reduzir seus investimentos, cortar sua programação ou postergar a ativação de obras, aumenta a preocupação com a rodovia. E não é sem razão, já que, por diversas vezes, esta obra representou promessas de campanha não cumpridas. O trecho em São Paulo, SP-250, foi pavimentado há mais de 40 anos. O governo Jaime Lerner tem buscado junto à União a solução deste problema, ressaltando a necessidade de uma análise da BR-476 e de todo o Vale do Ribeira sob uma nova ótica.
Esta rodovia atravessa uma região de características peculiares. Com uma topografia muito acidentada, o Vale do Ribeira ficou à margem do processo de ocupação do território na medida em que se deslocou a ligação com São Paulo para a BR-116. Estão ali importantes reservas minerais, que vão desde o chumbo, tendo como subproduto para a sua exploração a prata, até calcário calcítico, que permite a ampliação da indústria cimenteira. Também há ali jazidas de fluorita, mármore e granito.
Enfim, é uma região de riqueza mineral expressiva. Além disso, são enormes as massas reflorestadas, representando um importante recurso para a industrialização, seja na produção de aglomerados, compensados, madeiras para a indústria moveleira e para a construção civil, seja para a extração de essências e de resinas, ou ainda, na produção de energia vegetal.
Outra potencialidade é a indústria do turismo. Trata-se de uma região que apresenta matas, cavernas, varadouros e corredeiras com uma beleza rústica admirável, onde se destacam cenários e sítios geológicos e ecológicos a serem visitados, formando um grande parque turístico ao longo destes 94 quilômetros paranaenses, estendendo-se inclusive para a porção paulista do Vale.
Esta região, que apresenta uma das mais baixas rendas per capita do Estado e do Sul do País, com taxa de crescimento populacional oscilante, mas que perde em população rural, não vê perspectivas de trabalho para os mais jovens. Logo, perde também em população jovem, o que torna indispensável a urgente pavimentação da rodovia.
Outro fato novo muito importante para o desenvolvimento da região é o gasoduto que transportará o gás natural da Bolívia, passando por São Paulo e, na continuidade, para o Rio Grande do Sul, cortando o Vale do Ribeira. Sua inclusão no trajeto do gasoduto poderá ser uma alavancagem de extrema relevância para o crescimento econômico, particularmente para a abertura de novas perspectivas de industrialização da região.
A expansão da indústria cimenteira, a reativação da exploração do chumbo e da fluorita, cujo cenário internacional, aliás, favorece agora a competitividade da produção nacional, a possibilidade de aproveitamento dos mármores e granitos, a indústria madeireira e todas as atividades que dependem de um transporte eficiente e permanente e consomem energia em larga escala.
O gás natural boliviano, que é um produto limpo sob o ponto de vista ambiental, de melhor controle de temperatura quando de sua queima e de custo bastante baixo, viabilizará fortemente a industrialização de toda a região e o aproveitamento dos recursos naturais disponíveis, se for resolvida essa imensa dificuldade de acesso rodoviário que o Vale do Ribeira vem enfrentando há décadas.
A Mineropar, empresa vinculada à Secretaria da Indústria, Comércio e do Desenvolvimento Econômico do Paraná, responsável pelo fomento da atividade mineral no Estado, tem enfrentado dificuldade na atração de novos investimentos industriais no processamento mineral da região, exatamente pelas condições desfavoráveis da estrada, que não permite assegurar presteza, custo reduzido e garantia permanente de tráfego em condições adequadas.
Não é mais possível admitir que esses 94 quilômetros sejam um impedimento ao progresso e causa de desesperança para toda uma população que há tanto tempo aguarda solução. Diretamente ligados à rodovia, os municípios de Bocaiúva do Sul, Tunas do Paraná, Rio Branco do Sul, Cerro Azul e Adrianópolis, totalizam mais de 50 mil habitantes que merecem receber os efeitos positivos do crescimento.
A conclusão recente da ponte de Adrianópolis, que levou cerca de dois anos em processo de reconstrução, elimina uma das grandes dificuldades para a integração da BR-476 com o Estado de São Paulo. O Paraná já desembolsou mais de R$ 70 milhões com a duplicação da BR-376 (PR-SC) e, no entanto, os recursos necessários para a pavimentação da estrada do Ribeira estão orçados entre R$ 30 milhões e R$ 40 milhões.
É um direito do Paraná e dever e responsabilidade da União devolver esse investimento feito com recursos da população de nosso Estado, a fim de que sejam aplicados com urgência na pavimentação da BR-476, integrando definitivamente o Vale do Ribeira ao território paranaense e ao atual momento de expansão econômica que vive o Paraná.
- OMAR AKEL é arquiteto e urbanista, presidente da Mineropar/Minerais do Paraná S/A


