Os indultos de Natal são comuns, mas neste 2017 o que chama a atenção nos presídios é o vaivém de políticos e empresários ligados à corrupção. Enquanto alguns saem, outros entram, numa fila que parece não ter fim.

Na última terça-feira (19), sete meses após o julgamento pela Primeira Turma do STF, por crime de lavagem de dinheiro e remessa ilegal de dólares ao exterior, o deputado Paulo Maluf (PP/SP), foi condenado a regime inicial fechado pelo ministro Edson Fachin. A pena total conta com sete anos, nove meses e dez dias.
A condenação é por um crime velho que remonta a longa espera, desde que Maluf foi acusado de práticas ilegais por participação de um esquema de propinas na Prefeitura de São Paulo, em 1997 e 1998, que teria contado com seu envolvimento nos anos seguintes. Trata-se do tipo de condenação que ninguém mais esperava, daquelas que cheiram à prescrição, tendo em vista que o condenado tem 85 anos.
Mas na quarta-feira (20), Maluf se apresentou à Justiça, depois de dizer na véspera, quando a notícia estourou, que "nada sabia" sobre a decisão. Frase emblemática na boca de muitos políticos suspeitos ou condenados que, nos últimos anos, repetem a ladainha de "nada saber" acerca do que devem à Justiça e à sociedade, apesar de serem considerados protagonistas de situações irrefutáveis.

No mesmo dia em que Maluf recebia a notícia de sua condenação, que deverá ser em regime fechado no Presídio da Papuda (DF) - de acordo com informações divulgadas até a tarde de ontem -, o empresário Marcelo Odebrecht deixava a carceragem da PF em Curitiba, depois de 2 anos e meio, indo para prisão domiciliar em seu condomínio de luxo, no bairro do Morumbi, em São Paulo. Da mesma forma, seguem no país diversas ações que podem reunir mais algumas "celebridades" da política e do mundo dos negócios atrás das grades, mostrando que percursos criminosos e antiéticos foram a tônica da política não apenas nos últimos anos, mas nas últimas décadas.

Não deixa de ser um triste "presente" de Natal para a população saber que aqueles nos quais ela depositou confiança nas urnas, traíram a confiança coletiva como protagonistas de crimes que demoram anos para serem julgados. Um dos advogados de Maluf ainda se apropriou do discurso "clássico" dos que querem sair pela tangente: "Essa decisão do ministro Fachin vem ao encontro deste momento punitivo e dos tempos estranhos pelos quais passamos".

De modo comum, quase todos os denunciados apelam para a "injustiça" de responderem por atos que lesam em milhões os recursos públicos, sem indício de nenhuma dor na consciência por terem desviado dinheiro de escolas, hospitais, estradas, habitação. Só Maluf teria enviado US$ 1 bilhão de dólares ao exterior. Se fossem feitas as contas de todo dinheiro público sangrado no país, daria para construir outro Brasil, sem nenhum vestígio de miséria. Claro que no plano da decepção geral, ninguém sonha com tanta presteza para essa reconstrução, mas torna-se um pequeno alento saber que a Justiça tarda mas não falha.

Apesar do pesadelo de que ainda pode falhar quando as condenações passam por certos ministros do STF que, numa canetada, soltam prisioneiros corroborando com a ideia de "prisões ilegais", quando ilegal mesmo deveria ser a fome e a falta de saúde causadas por sistemas endêmicos de corrupção.

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