O último suspiro da utopia?
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de dezembro de 1996
José Antonio Pedriali 
A ocupação, de consequências imprevisíveis, da residência do embaixador japonês no Peru por um comando do Movimento Revolucionário Tupac Amaru (MRTA) põe em evidência a fragilidade da estratégia de pacificação empreendida pelo presidente Alberto Fujimori e conduz a uma questão inquietante: até quando resistirá o processo de pacificação conduzido pelos países latino-americanos?
O Peru, que além do MRTA convive com o sanguinário Sendero Luminoso, ainda não havia conseguido assinar um acordo de paz com a guerrilha, mas o caminho para a formalização desse acordo se abriu com a prisão de Abimael Guzman, líder máximo do Sendero, e de Victor Polay, comandante do MRTA, juntamente com os principais dirigentes das duas organizações.
Guzman, o camarada Gonzalo, foi preso em Lima em 1992, numa espetacular operação, conduzida pela polícia especializada no combate ao terrorismo - a Dincote -, e condenado à prisão perpétua. Desde então, sua organização, de filosofia e métodos maoístas, surgida em 1980 na cidade andina de Ayacucho e dali ramificada praticamente em todo o país, incluindo a região selvática do Alto Huallaga, desmantelou-se, retraiu-se e ruma inexoravelmente para a extinção.
O MRTA, que iniciou suas operações em 1984, fez o percurso inverso do Sendero: primeiro estabeleceu-se na capital para, então, espalhar-se pela selva e finalmente nos Andes - onde há grande concentração populacional, principalmente de pessoas de baixa renda. O MRTA, que cultua Che Guevara como seu principal ideológo, também sofreu um duro golpe com a prisão de seu líder e, através da ocupação da residência do embaixador japonês - e tomada de quase quinhentos reféns, entre eles muitos diplomatas -, realiza a maior ação de sua história.
A prisão de Abimael Guzman e de Victor Polay - e a consequente desestruturação das organizações sob suas lideranças - foi uma das principais causas do sucesso da primeira administração de Fujimori e, junto com a eficácia do presidente em conter a inflação, contribuiu decisidamente para sua reeleição. Quando Fujimori assumiu a presidência, em 1990, a inflação peruana atingia estratosféricos 7.650% ao ano - e hoje está na casa dos 12% anuais. A ação do MRTA faz ressurgir o fantasma do terrorismo, trauma do qual a Nação peruana ainda não havia se recuperado integralmente. O prestígio de Fujimori, naturalmente, fica abalado com a ousadia do MRTA e somente um desfecho que humilhe os terroristas poderá recuperá-lo.
A guerrilha, rural ou urbana, foi o recurso utilizado, nos anos 60 e 70, pelos movimentos de esquerda em praticamente toda a América Latina, e a queda do Muro de Berlim, em 1989, encontrou essas organizações agonizantes sob o processo de democratização do continente. Da agonia para a morte, foi só uma questão de tempo. Os lendários montoneros e tupamaros, da Argentina e Uruguai, respectivamente; o Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR) e a Frente Patriótica Manuel Rodriguez, do Chile; o Alfaro Vive, do Equador; o Movimento 19 de Abril (M-19), da Colômbia - para citar somente as mais conhecidas organizações da América do Sul, sucumbiram ao peso da História. O que restou deles, além da nostalgia, compartilhada por poucos, e um ou outro arremedo de partido político?
O Brasil conheceu organizações similares, que cresceram e viveram à sombra do regime militar, e delas herdamos o quê, em termos pragmáticos, além de algumas lideranças políticas que ainda estão em atividade? A América Central, por sua vez, foi a região mais fértil para a ação guerrilheira, que triunfou em dois países: Nicarágua, em 1979, e Cuba, em 1959 (permitam-nos a flexibilidade geográfica, já que o Caribe pode ser considerado uma extensão natural da América Central...)
Cuba foi a pátria-mãe do socialismo latino-americano e simbolizou para a esquerda a concretização da Utopia: com a vitória de Fidel, de Che e dos guerrilheiros de Sierra Maestra, a teoria revelou-se viável e não se limitaria às fronteiras geográficas e culturais. A América primeiro, o mundo depois, sucumbiriam fatalmente ao charme, ao idealismo e à abnegação dos rapazes e moças que empunhariam o fuzil e lutariam contra os ditadores, sem, no entanto, perder la ternura jamás.
O tempo, que um sábio e um tolo já disseram ser o senhor da razão, mostrou a fragilidade desse idealismo. A conquista do poder pela luta armada, com exceção de Cuba e Nicarágua, comprovou-se impraticável no restante do continente. O sonho acabou para os milhares de idealistas que sobreviveram à perseguição implacável dos regimes ditadoriais que esses mesmos idealistas, através de sua ação tresloucada, contribuiram para implantar ou consolidar.
Mas a Colômbia - o país que contabiliza o maior tempo de convivência com a guerrilha -, o Peru e mais recentemente o México ainda não se livraram da presença desses grupos. O Peru, como o analisado acima, está (ou estava?) em processo de liquidá-los. O México, por sua vez, parece contrariar o fluxo histórico, pois nas décadas de 60 e 70 passou praticamente ileso pela ação da guerrilha e agora, quando abre suas fronteiras e integra o bloco comercial com os Estados Unidos e o Canadá, o Nafta, defronta-se com a existência de três organizações guerrilheiras.
A irrupção da violência guerrilheira no Peru e a ação das organizações mexicanas, surgidas nos Estados de Chiapas e Guerrerro - os mais pobres do país e excluídos do surto de riqueza provocado pelo Nafta -, revelam que o processo de pacificação latino-americana ainda não está consolidado. Enquanto houver a pobreza - e a pobreza caracteriza a maioria dos povos latino-americanos - haverá espaço para a Utopia. E a Utopia, com o episódio da ocupação da residência do embaixador japonês em Lima, estará dando um de seus últimos suspiros ou estará ressurgindo, vigorosa?
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é editor responsável de Política, Economia e Opinião da Folha de Londrina


