O último ditador
A realidade que vivemos não é fruto dos fatos, mas de nossas crenças. Essa afirmação do filósofo grego Sócrates pode parecer diferente da prática, mas ao observarmos a vida, percebemos que é assim mesmo.
Um dos muitos eventos que comprovam essa teoria socrática são as consequências sobre a mentalidade social dos reveses políticos vividos pelo, até então, todo poderoso, senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA). Desde a abertura política no Brasil, que temos ACM como o mandachuva, alguém com poderes muito além de suas atribuições. Em rodas de bar se comentava que era ele quem mandava no Brasil. Nos salões, nos escritórios, nas ruas, o debate entre simpatizantes e oponentes era sempre em termos de quanto bem ou quanto mal Antonio Carlos produzia para a Nação. Jamais se colocava em dúvida seu poder.
Nossa crença no poder absoluto de qualquer indivíduo isolado e nossa percepção da inutilidade de tentar mudar alguma coisa a partir disso é que proporcionam as condições para o exercício da arbitrariedade. Quando, numa sucessão de derrotas políticas no Congresso, vislumbramos a fragilidade do poder de ACM, começamos a duvidar da crença anterior. Talvez nunca houvesse sido assim tão poderoso. Fomos e somos nós quem delegamos poder político, não só pelo voto, mas principalmente pela mentalidade que exercemos.
Independente da cassação ou não do mandato do senador, essa possibilidade em si já representa uma dramática mudança de nossa visão sobre a realidade. ACM não tinha mais poder do que tem hoje. Fomos nós que lhe atribuímos um poder além de si mesmo. Na medida que passamos a crer em algo diferente disso, também passamos a viver essa diferença.
A queda de Antonio Carlos Magalhães tem valor simbólico pelo que muda em nossa mentalidade política, pois representa a queda do último ditador. Não que fosse esse o papel vivido pelo senador, mas era esse papel que lhe atribuíamos.
Considerando esse contexto histórico, político e estrutural, a destituição do poder de ACM em nossas mentes representa o marco mais significativo do momento de mudança em que vivemos. Cai o ditador e, portanto, temos que assumir nosso papel de cidadãos. Não há mais justificativas, nem empecilhos, nem forças superiores que possam impedir nosso movimento rumo ao progresso.
ACM afirma não ser um todo-poderoso, em artigo publicado na Folha de S.Paulo, do último dia 3. E não é mesmo. Quaisquer superpoderes eram apenas fruto de nossas crenças. Transformado isso em nossa percepção se transforma também o ritmo, o rumo e a razão da atividade social. Deixamos de ser sociedade civil e passamos a ser sociedade cívica, simplesmente ao percebermos que somos nós os poderosos, que delegamos essa responsabilidade e agora a temos de volta em nossas mãos.
O Brasil sempre foi o país do futuro, nessa virada do jogo político o futuro chegou, não por decreto, mas por força e obra do ideal de uma nação brasileira, livre e próspera.
- DULCE MAGALHÃES é consultora de Marketing e Estratégias de Vendas e escritora em São Paulo
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