Suponhamos que seja tudo armação, que tudo não passe de uma tentativa vil e vã de jogar lama na reputação das mais coroadas cabeças brasileiras, a começar do até agora insuspeito presidente Fernando Henrique Cardoso. Então, sendo assim, vemos que ardis estão a rondar a vida e a honra dos homens públicos, que armadilhas ameaçam suas trajetórias. Sendo assim, uma armação, nada mais que uma armação, constatamos a que ponto pode chegar a mesquinhez humana, induzindo sabe-se lá quem, por motivos sabe-se lá quais, a investir contra o maior patrimônio de um homem público que faça jus a este título, que é sua integridade.
Supondo que tudo seja uma tentativa malsucedida de comprometer o presidente, o governador de São Paulo Mário Covas, o ministro da Saúde José Serra e a imagem do falecido Sérgio Motta, então o episódio de tentativa de chantagem a pretexto de uma milionária conta em um paraíso fiscal não merecerá mais que um pequeno registro na História (isto, se ela vier a se ocupar de algo tão infame e tão passageiro). E seu autor, ou autores, se vier a ser descoberto, terá o que merece: o repúdio da sociedade, a punição pela tentativa de chantagem - depois, o desprezo.
Continuemos a imaginar que tudo não passe de uma farsa. Se, uma vez em posse dos documentos forjados, o ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf tentou de fato utilizá-los (ele naturalmente supunha ser verdadeiros...) contra Fernando Henrique, vemos, mais uma vez, uma demonstração do caráter - ou da falta de - do homem cujo estímulo de vida é a conquista do poder máximo da Nação. E este homem, se fez o que fez, tentando empurrar as denúncias para que Luis Inácio Lula da Silva fizesse delas seu aríete na reta final da campanha pela presidência, não mais merece (e algum dia o teria merecido?) fazer parte da coligação política que sustenta o presidente da República.
As denúncias são graves. Um presidente da República, um ministro e um governador não podem conviver com a suspeita. Possuir, em conjunto, uma conta nas Ilhas Cayman com mais de 300 milhões de dólares não é um deslize, o resultado de uma instante de fraqueza coletiva, um pecado venial - é fruto de uma conspiração meticulosamente planejada e conduzida, um assalto contra a Nação.
Os acusados não têm o perfil de predadores do bem público para fins pessoais como procura fazer crer o tal dossiê. FHC, Covas e Serra sempre se distinguiram pela moderação em seus gastos e pela vida pessoal impecável. A idéia de formarem uma quadrilha contraria tudo o que fizeram e tudo o que disseram até agora. Ostentação, a única que admitem (com exceção de Covas, que não os possui) é a de seus dotes intelectuais. Os três são reconhecidamente pãos-duros e, por mais munhecas que sejam, nem dois séculos de economias seriam suficientes para acumularem tanta riqueza.
Diante de tal denúncia, não basta que o Palácio do Planalto escale seu porta-voz para negá-las em entrevista coletiva. É preciso, e a Nação o exige, que seja investigada, que se vá até as últimas consequências, que se limpe esta mancha. O Congresso está se movendo e hoje a Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara vota requerimento para que a Procuradoria Geral da República se encarregue da investigação. A atitude do Congresso é correta, mas a iniciativa deveria ter partido da própria Presidência da República, que é a instituição mais prejudicada - e, portanto, deveria ser a mais interessada em sepultar a suspeita.
Que se investigue. Por enquanto, continuemos a supor que tudo não passa de uma farsa.
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é jornalista da Folha

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