O trote universitário - Márcio José de Almeida
O trote universitário
Márcio José de Almeida
Será o trote algo salutar para o convívio universitário, ou, será ele um ritual despolitizado e brutalizador? A prática de escárnio dos trotes, se for dissecada desde o seu interior, pode se revelar como uma forma explícita de subjugação. Aliás, vale dizer que o trabalho de vários autores sobre o tema da violência pode ser representado na expressão de que o estudo desta consiste, sobretudo, no desvelamento das formas ocultas de suas várias manifestações. Este não é um assunto banal ou de menor importância. Mais do que um tema universitário é uma questão social. Questão que tem causado danos, às vezes de difícil e até impossível reparação, a indivíduos, a famílias e a instituições.
Os verdadeiros educadores e dirigentes universitários não se conformam em ver esta questão tratada nas páginas policiais dos nossos meios de comunicação. Têm consciência que o trote faz parte de um iníquo processo de ingresso do estudante no ensino superior brasileiro. Ano após ano, esquecidos na alegria dos que são aprovados, vão-se, cabisbaixos, milhares de alunos que não conseguiram uma vaga. Esta é uma situação de violência simbólica que os poucos aprovados não devem esquecer e muito menos exacerbar com novos atos de violência. Nesta ótica, o trote deve ser tratado com todos seus ingredientes acadêmicos, administrativos e com um enfoque eminentemente pedagógico e libertador.
Neste primeiro semestre de 1999, a sociedade manifestou-se, mais uma vez, contra a violência do trote nas universidades brasileiras e apoiou as iniciativas de estudantes, professores e instituições voltadas a uma recepção digna e cidadã aos novos universitários. Vários episódios lamentáveis, e em especial a morte de um calouro da USP, repercutiram intensamente na imprensa nacional.
Em Londrina, e particularmente na UEL, não se verifica, há vários anos, acontecimentos graves na recepção aos calouros. O que não significa que o risco deixou de existir. Apesar da existência de instrumento legal (Ato Executivo 1.014/89) para coibir as práticas abusivas, ele já não dá mais conta da complexidade do problema.
Segundo o Ato Executivo, a ação da instituição fica limitada ao seu âmbito físico, com a proibição apenas nas dependências da Universidade. Tal concepção legal restringe a universalidade, conceito essencial à universidade. Afinal, os universitários são preparados para atuação profissional e humana na sociedade, e não apenas nos limites da instituição. Essa visão limitada e limitante é um escape e uma escusa a julgar eticamente comportamentos condenáveis, em vias públicas, plenamente identificados pela sociedade e pela imprensa como de autoria de integrantes da comunidade universitária.
Neste ano, prevendo a ocorrência de situações de risco e buscando prevenir acontecimentos indesejáveis, a Reitoria da UEL lançou, em janeiro, a campanha Diga não ao trote violento, que alcançou ampla repercussão. Mesmo assim verificou-se a persistência de condutas reprováveis, e várias manifestações de condenação foram registradas na imprensa local.
Como dirigentes universitários e educadores nos preocupamos com essa situação. Não nos iludimos com o estado latente de uma cultura da violência que se alastra na sociedade, fruto da agudização de uma crise social que se prolonga e do esgarçamento dos sentimentos de solidariedade e dos valores éticos.
Lamentavelmente, parcela da nossa juventude é vítima das falsas mensagens do que significa alegria e congraçamento. Muitos de nossos jovens não se dão conta de que o exercício abusivo da liderança de alunos veteranos sobre alunos ingressantes é camuflado sob vários pretextos. O simples fato de uns mandarem e outros obedecerem, sem que haja hierarquia formal, constitui uma violência. Os oprimidos passam a não reconhecer a humanidade no seu ser para reconhecê-la no ser do opressor. No desconhecimento da sua própria humanidade, perpetuam a violência e a opressão.
No início deste ano ocorreram várias reuniões de dirigentes da universidade com alunos calouros e veteranos, especialmente de cursos em que episódios lamentáveis aconteceram. No decorrer do semestre, novos encontros aconteceram e os colegiados de curso e conselhos departamentais dos Centros de Estudos da UEL foram convidados a aprofundar a análise da problemática, cumprindo com seu papel de instâncias educativas e dirigentes. Também lideranças estudantis participaram dos debates.
A esmagadora maioria das manifestações foram no sentido de maior firmeza na proibição ao trote e da criação de novas formas de recepção aos novos alunos que, sem constrangimentos, propiciem o autêntico congraçamento da comunidade universitária entre si e com a sociedade. O resgate e fortalecimento do culto ao humanismo, da solidariedade e do absoluto respeito aos indivíduos são desejos manifestos por inúmeras vozes.
Entendendo que o que está em jogo, além da imagem da UEL e da nossa condição de co-responsáveis pelos fatos da vida universitária, é o respeito à vida e a construção de sujeitos sociais com maior autonomia, capazes de contribuir para a formação de cidadãos e de uma sociedade mais justa, nós, educadores e dirigentes da UEL, não nos furtamos ao dever de promover uma mudança cultural que elimine definitivamente os riscos inerentes às práticas e condutas irresponsáveis.
Neste sentido, propomos que nas próximas semanas a reflexão e o debate continuem, dentro e fora da Universidade. E que ele seja concluído, ao menos nesse momento, através da aprovação de uma resolução que venha a ser analisada pelo Conselho Universitário, instância dirigente máxima da UEL, que reúne representantes da comunidade universitária e da sociedade.
Vamos juntos superar mais um entrave na construção que está em curso do novo modelo acadêmico da UEL centrado no aluno como sujeito social autônomo e agente crítico da construção do conhecimento, no professor como facilitador e dinamizador dos processos de ensino-aprendizagem e na sociedade como objeto, meio e fim da ação educativa e palco da atuação profissional dos nossos graduandos de ontem, hoje e amanhã. A proibição do trote e a eliminação das suas várias formas de violência, como uma introdução crítico-reflexiva à vida universitária, é uma condição fundamental para a própria defesa da universidade como um espaço da democracia, do humanismo e da cultura.
- MÁRCIO JOSÉ DE ALMEIDA é vice-reitor





