Um espectro está surgindo nos Estados Unidos – o do neo-racismo. A lista de ministros do novo governo pode levar a um engano. Sim, é certo que George W. Bush nomeou negros, latinos, asiático-norte-americanos e mulheres junto com seis homens brancos que, por si só, não constituem uma maioria dentro do gabinete. Mas, por acaso isto demonstra que o presidente é uma pessoa de critério amplo? Não creio que seja assim.
Se o gabinete designado por Bush nos diz algo é que as políticas raciais tornaram-se muito mais complicadas ultimamente. Os defensores dos direitos civis foram colocados na defensiva por uma nova classe de radicais de direita, hábeis em disfarçar velhos ódios com uma enganosa retórica. Através do palavreado do neo-racismo, fanáticos de fala melosa aprenderam a camuflar sua ideologia e a fazer com que sua mensagem penetre na mente coletiva.
As mais cruas formulações racistas são atenuadas e minimizadas como primeiro passo para a articulação de um discurso político menos agressivo, no qual é dada ênfase à ‘‘herança’’ e às ‘‘diferenças culturais’’, mais do que à genética ou à cor da pele.
John Ashcroft, o designado secretário de Justiça, de modos suaves jura que não é racista. ‘‘Creio que o racismo está equivocado, repudio as organizações racistas; eu as rechaço’’, afirmou Ashcroft na sessão parlamentar onde foi sabatinado com vistas à sua confirmação no cargo. Os negros norte-americanos, junto com outros setores, não estão muito impressionados por essa conversa de Ashcroft com relação à tolerância racial.
‘‘Taticamente prudente, John Ashcroft representa na política norte-americana a extrema direita, que defende a discriminação racial’’, afirma David Bosits, especialista em questões afro-norte-americanas, do Joint Center for Political and Economic Studies, com sede em Washington. ‘‘Ele é tão repugnante para os negros quanto Kurt Waldheim o é para os judeus’’, acrescenta Bositis, referindo-se ao ex-secretário-geral da ONU que na Segunda Guerra Mundial lutou como oficial em um regimento nazista.
Até agora, o completamente branco Senado norte-americano não parece compartilhar da idéia de que Ashcroft, ex-senador, seja tão repugnante. Depois das primeiras sessões parlamentares nas quais foram examinados os nomes indicados por Bush, tanto democratas quanto republicanos disseram esperar que Ashcroft fosse confirmado, apesar de ele ter descrito enganosamente sua história como governador do Missouri. Se for confirmado, será uma chamativa indicação do triunfo do neo-racismo na superpotência.
Em aberta contradição com a afirmação de Ashcroft de que não tentou bloquear a eliminação da segregação racial durante seu mandato, é sabido que a sentença de uma corte federal estabeleceu que o estado do Missouri foi o ‘‘principal malfeitor constitucional’’ por seus esforços para evitar a integração nas escolas públicas. Ashcroft nunca alardeou publicamente sua inclinação para vestir o capuz branco da Ku Klux Klan. Ele não recita o grosseiro idioma da pseudociência biológica utilizada pelos racistas tradicionais e confessos. Em lugar disso, utiliza astutos e escorregadios conceitos neo-racistas, vernáculos como os da ‘‘discriminação ao contrário’’.
Apesar de Ashcroft não se gabar disso, ele e outros proeminentes membros do governante Partido Republicano recolheram uma página retórica do ex-líder da Ku Klux Klan, David Duke, que foi elogiado pelo grupo racista Southern Partisan como ‘‘um porta-voz populista da recuperação do ideal norte-americano’’. Duke, habitualmente, está ao lado de neonazistas nos Estados Unidos e na Rússia. E Ashcroft teve um rating de 100% de aprovação por parte da Christian Coalition de Pat Robertson, o destacado lobby religioso direitista que, em 1990, sustentou a falida tentativa de Duke de chegar ao governo da Lousiana.
‘‘Não há nada de mau nas pessoas negras, orgulhosas de sua herança e de sua raça. Tampouco há nada de mau nas pessoas brancas, que têm o mesmo orgulho’’, disse Duke, que em sua campanha eleitoral conseguiu maquiar a face do racismo, dando-lhe uma aparência mais positiva e tragável. Se houvesse preferido slogans abertamente racistas, Duke teria se indisposto com muitos de seus eventuais eleitores, esses que podem identificar o extremismo quando vêem indivíduos com insígnias nazistas ou da Ku Klux Klan, mas não quando se esconde atrás do vocabulário mais sutil e eufemístico usado pela extrema direita para investir contra os benefícios sociais, a imigração e outros assuntos carregados de significado racial.
Daí, Ashcroft e outros que pensam como ele se oporem à assistência social em favor dos setores marginalizados das minorias, com o argumento de que os negros são irremediavelmente inferiores e indignos. Os chamados ‘‘conservadores complacentes’’ dizem rechaçar o assistencialismo porque, dizem, estão tão profundamente preocupados com os afro-norte-americanos que não querem que eles sofram o trágico estigma de viverem angustiados pela culpa de saberem que foram injustamente ajudados pelos programas preferenciais que discriminam os cidadãos brancos. Esta é, nem mais nem menos, a lógica torcida do neo-racismo.
- MARTIN A. LEE é jornalista e escritor norte-americano em San Francisco, autor de ‘‘The Beast Reawakens’’ (‘‘A Besta Desperta Novamente’’), um livro sobre o neofascismo (IPS)

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