O triste espetáculo da matança
O sacrifício sanitário de bovinos no Paraná não difere do abate de gado que ocorre diariamente nos frigoríficos do Brasil, país que é grande produtor de carne e possui rebanho equivalente à sua população: 200 milhões de cabeças. Mas é triste o espetáculo da matança se acontece por razões de política comercial e outras não reveladas, como no presente caso. Não há febre aftosa a justificar o extermínio, mas o Paraná foi marcado pelo estigma do mal inexistente e amarga esse drama, sem nada dever. Estas mortes são inúteis, a não ser para satisfazer razões da insensatez humana, que trilha pelo vasto caminho de interesses, externos mas também internos. Tudo isto já foi discutido à exaustão, só restando a certeza de que não há febre aftosa nos rebanhos paranaenses. Também se reduz a questão de somenos importância discutir, a esta altura, que tanta carne seja desperdiçada quando imperam no País bolsões de fome. Porque 20 mil ou 40 mil reses sacrificadas são ainda pouco diante do criatório bovino brasileiro, que é imenso e se recompõe com facilidade, pela vasta extensão das pastagens e pela dinâmica da tecnologia. Mas entristece, e causa consternação nacional, saber-se que tudo isto acontece com animais sadios e que são lançados inteiros nas covas. Se, de uma forma ou de outra, essa espécie animal se destinaria aos matadouros para alimentar pessoas, o holocausto que ora acontece tem todas as marcas da barbárie. Faz relembrar, da história paranaense, a época em que se queimou toneladas e toneladas de café em grão, em Londrina e outros pontos da região, para solucionar o ''problema'' do excesso de produção e sustentar preços no mercado internacional. Durante semanas assistiu-se à agonia de montanhas de café irem definhando pelo fogo lento do braseiro. A geada negra das duas madrugadas fatídicas de 19 e 20 de julho de 1975 á quase 30 anos depois da imolação do café viria como indicativo de sinistro retorno face ao crime cometido. Findou-se, com essa geada fatal, o ciclo fantástico do café, que enriqueceu o Paraná e viu cidades florescerem ao seu redor, e, mais à distância, fazendo a capital do Estado saltar de 160 mil habitantes no início dos anos 50 para a metrópole de poucas décadas depois. O dinheiro que dava em árvore, naqueles tempos, serviu a todos, de norte a sul e de leste a oeste do Paraná. Agora destrói-se animais, uma reedição do que aconteceu com o café. Tudo se explicaria se, pela eventual infestação de uma epidemia de aftosa, o extermínio se tornasse irreversível. Mas não é o caso do Paraná, e disso todos sabem. O que de início defendeu-se como fórmula se é que houvesse a moléstia, de que se suspeitava converteu-se num barbarismo. Um vendaval está passando pelo Paraná e ficará registrado na consciência daqueles, que, insensatamente, o geraram.





