Por quê Ciro Gomes faz grande barulho e ganha tanto espaço na mídia, ele que, até pouco tempo, era considerado apenas um tucano de bico torto por não frequentar os ninhos do Planalto? A resposta agrupa três tipos de fatores: o gosto da imprensa pelo contraditório, o perfil diferenciado do ex-ministro da Fazenda e a leitura apropriada que faz do clima ambiental. Esse é seu tripé. O sinal que emite para a sociedade canibaliza o discurso de Lula, porque, ao contrário deste, não quer virar a mesa mas simplesmente conformá-la aos padrões exigidos por densos contingentes médios, onde estão as trombetas mais retumbantes da opinião nacional.
Na moldura informativa, Ciro se encaixa na estratégia da imprensa em buscar perfis fortes, de preferência oposicionistas ao status quo, articulados e com propostas que possam parecer diferenciadas das tradicionais. Sabe usar metáforas de guerra e atira com certa precisão. Quanto mais importante o alvo, mais interesse tem a imprensa em dar cobertura ao tiro. E quando se trata de briga entre parentes, ou melhor, de tucano bicando o dono do ninho, forma-se um quadro ideal para grandes espaços de visibilidade. Não foi por acaso que Ciro passou um tempinho em Harvard. Ali melhorou sua linguagem sociológica e a capacidade de refletir sobre a macropolítica. Fernando Henrique seduz interlocutores com uma locução rica e sofisticada. Projeta a imagem do perfil mais preparado, mais arrumado. Se alguém quiser destroná-lo, precisa estar próximo de sua identidade. Lula, por mais que recite palavras difíceis, esconde por trás do paletó o antigo macacão de metalúrgico. E isso ainda dá medo.
Ademais, o meio da sociedade está nervoso. O Realismo (política do real) bateu no teto. As classes médias - professores, profissionais liberais, empresários de todos os níveis, funcionários públicos - querem olhar por outras janelas. Assustam-se com o desemprego, a violência, a deterioração dos serviços, os tributos, a degradação da área social. Quando Antônio Ermírio, o maior ícone do empresariado nacional, grita, sua voz arregimenta, sinaliza. Ciro Gomes é esperto, porque está batendo nesses teclas, energizando as classes médias, canalizando as vozes, gritos e sussurros de grupos insatisfeitos. Parece com Collor? Parece, sim, na forma aguerrida, que se aproxima da truculência, na jovialidade, na mobilidade. Mas o discurso é denso, diferente dos chavões colloridos. Os setores médios procuram uma linguagem de vanguarda, nova, responsável, capaz de alterar a pasmaceira.
A possibilidade de formação de um bloco homogêneo de centro-esquerda é remota. O PT dificilmente queimará a candidatura de Lula, a não ser, bem adiante, vislumbrando chance de vitória das oposições unidas. Itamar é um logotipo desenhando na bandeira de um PMDB sem rumos. Como tal, ficará no silêncio mineiro, isolado no patético discurso de paternidade do Real. Mas as dúvidas eleitorais de presumíveis candidatos não tiram a certeza de que há um imenso buraco na região centro-esquerda do arco ideológico, pronta para ser ocupada por um discurso objetivo, claro, focado na idéia central de um país estabilizado na economia, avançando nas reformas, justo na aplicação dos direitos e cobrança dos deveres, controlado em suas taxas de violência e mais solidário com as causas dos menos favorecidos.
Messiânicos, caudilhos, reformadores radicais, analistas ranzinzas, aventureiros, oportunistas e cínicos estarão afastados da consciência dos setores esclarecidos e não motivarão o inconsciente coletivo. O povo brasileiro amadureceu nas crises. Se Ciro Gomes se filiar a uma dessas correntes, não chegará ao meio da montanha.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e presidente da ABCOP - Associação Brasileira de Consultores Políticos

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