Em 1936, Sérgio Buarque de Holanda lançou um livro que trouxe importantes elementos para a compreensão do que poderíamos, de forma simples, chamar de a cultura brasileira. Falamos de "Raízes do Brasil", escrito tal como um guia para a compreensão daquilo que, na década de 1930, dentro do nacionalismo varguista, constituía o obstáculo para o desenvolvimento do País.
Mesmo após oito décadas desde sua publicação original, vários tópicos presentes em tal estudo mantêm sua atualidade, mas nenhum é mais evidente no cotidiano do brasileiro do que a noção de "homem cordial". Talvez, seja este o conceito mais lembrado da obra do historiador, o que apequena o conjunto de seus escritos, mas que é preciso em seu entendimento do que seria o caráter do brasileiro.
Mas o que é o "homem cordial"? O brasileiro comum, inimigo dos formalismos, poderia tomar a expressão como sinônimo das relações amigáveis, que busca estabelecer com os seus. No entanto, cordial, no sentido que lhe atribuiu Sérgio Buarque, está ligado à forma como este homem brasileiro trata as relações ao seu redor, guiando-as primordialmente a partir de seu caráter emocional e pouco racionalizando a respeito das mesmas. Poder-se-ia dizer que este ser cordial guia suas relações por meio de seu coração, de seu interesse privado, e não balizado pelo conjunto de regras impessoais que regem o espaço público.
Em termos práticos, podemos verificar isto no trânsito, em especial na cidade de Londrina. Cordialidade aqui retorna ao sentido original dado pelo autor: toma-se o trânsito como uma relação emocional, na qual vale o interesse privado acima do bem público. Tal conduta não parece estranha quando pensamos nos inúmeros casos de motoristas que fazem conversões sem utilizar a seta. Vale mais a minha preocupação e o meu interesse de virar do que avisar aos demais da minha intenção.
Pegue-se também como exemplo os motoristas que, para ganhar tempo, utilizam a fila da esquerda para, forçando a passagem, entrar à direita em vias ou cruzamentos em que esta possibilidade é vedada. Lembre-se, ainda, o caso do motorista que, vendo a vaga do deficiente ou do idoso livre, para ali com vistas a realizar seus interesses. Poderíamos continuar a elencar diversos exemplos, mas a questão se coloca de forma clara: o motorista dirige guiado por sua emoção, por seu interesse privado, e não de acordo com a regra impessoal que, para ele, deve sim ser aplicada, mas ao outro, que interrompe seu caminho, que atrapalha sua jornada.
Ainda neste sentido, a reforçar a tese que aqui apresentamos, poderíamos agregar o estudo de Roberto Damatta sobre o caráter do trânsito brasileiro. O antropólogo fez importantes considerações ao pensar que, no Brasil, mais do que um meio de transporte, o carro é símbolo de poder e sucesso, de demarcação de lugares sociais, que vão subindo desde o usuário do ônibus até o possuidor do carro zero quilômetro. O brasileiro não utiliza o transporte público porque isso o transforma em massa, em pessoa comum, em inferior hierárquico. E, nesta disputa, quanto mais poder o veículo me dá, mais posso desrespeitar as leis que guiam o comportamento e a convivência (afinal, meu poder e sucesso me colocam acima da lei).
E neste ponto é que devemos nos atentar: em 1997, Hélio Luz, então chefe da Polícia Militar do Rio de Janeiro, afirmava que existe uma polícia corrupta no Brasil pois o povo exige uma instituição assim. Guiada por seu interesse privado, a população não deseja que a polícia funcione da maneira correta. O cidadão que suborna a polícia, que pede a compreensão pelo delito, pois afinal era "só daquela vez", é tão corrupto quando o policial que aceita a propina, e que reforça, dentro da cultura brasileira, que o "jeitinho" e os interesses de cada um são mais importantes que o interesse público.

LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina

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