Manchete da última quinta-feira da FOLHA - ''Paraná está na rota do tráfico de pessoas'' -traz à tona um assunto chocante. Mulheres, algumas na fase da adolescência, são levadas para países europeus, enganadas pela promessa de bons ganhos e perspectiva de um futuro mais próspero, onde são obrigadas a trabalhar, em regime de escravidão, para quadrilhas muito bem organizadas. São submetidas a programas sexuais, privadas do contato com a família e têm o passaporte confiscado pelos aliciadores, ficando impedidas de retornar ao Brasil. Se ousam se rebelar, acabam mortas.
O negócio movimenta US$ 40 bilhões por ano em todo o mundo. Segundo a Secretaria Nacional de Justiça (SNJ), pelo menos 60 mil brasileiras são vítimas anualmente do tráfico de pessoas, que não anda sozinho, conforme o presidente da Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (Conamp) César Mattar Júnior: ''É um negócio ligado ao tráfico de armas e drogas''. ''O Paraná é um entreposto para os países do Mercosul e onde esse mercado está presente de forma mais acentuada.''
Itália, Espanha, Portugal e Suíça são destinos comuns dessas escravas do século 21. Nesses países, cada vez mais aumenta o preconceito contra mulheres oriundas do Brasil, que acabam sendo associadas à prostituição.
Na contramão, a política externa brasileira e a fiscalização quanto ao que e quem entra e sai do País é ineficiente. Faltam programas e parcerias com as nações que recebem as vítimas do tráfico. Somente um trabalho integrado entre autoridades brasileiras e órgãos policiais e de repressão à imigração ilegal poderia devolver a liberdade a essas mulheres. Isso não acontece.
Evidenciar o fato, como fez a FOLHA, é uma forma de abrir os olhos de quem está no poder. Exemplo disso é o combate ao tráfico e consumo de crack, epidemia que se alastra pelo País e que agora faz parte do plano de governo dos candidatos à presidência e ao governo estadual depois de tanto ser exposto.
Fica a pergunta: será preciso o tráfico de pessoas ser tão exposto, discutido e debatido quanto o de crack para, também com muito atraso, receber a devida atenção?

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