Ricardo Prochet
O aparecimento dos primeiros computadores, na época, romanticamente chamados de ‘‘cérebros eletrônicos’’ mexeu significativamente com a sociedade. Construíram-se, daí em diante, diversas teses, iniciando pelas horas de lazer que a máquina agregaria às donas de casa, passando pelo temor de uma rebelião de robôs que estariam a controlar tudo e a todos, privando o ser humano de sua maior conquista, a liberdade de pensamento e iniciativa, terminando finalmente, com o fim do sistema capitalista graças à formação de intermináveis hordas de desempregados tanto nos países desenvolvidos quanto nos chamados ‘‘em desenvolvimento’’, que é o nosso caso.
Acreditava-se há quarenta anos que os Univac, nome dado ao bisavô dos atuais computadores, substituiriam integralmente o homem, e teríamos como consequência direta enormes legiões de desempregados que viriam a destruir o mundo e tornar a convivência humana insuportável. A expectativa, entretanto, não veio a se materializar, pois ao mesmo tempo em que os computadores e máquinas cientificamente e tecnologicamente avançadas substituíam o trabalhador, aumentavam significativamente a produção e geravam consequentemente novas oportunidades em outros setores da economia.
Os Estados Unidos tinham, ao final do século 19, 50% de sua força de trabalho empregada na agricultura e nas atividades extrativas. Cem anos depois, esse percentual reduziu-se para cerca de 2,5% e é, mesmo assim, responsável por 30% do Produto Nacional Bruto, o que significa, em outras palavras, que um terço da riqueza do País é gerada por menos de 3% da força de trabalho.
No Brasil, em 1990, da População Economicamente Ativa (PEA), de acordo com a Síntese da Economia Brasileira, exatos 22,8% das pessoas ativas com mais de 10 anos de idade estavam ligadas ao ramo agrícola, ou seja, o inverso do que observamos com a nação economicamente mais forte do mundo.
Nos Estados Unidos, as máquinas têm substituído o homem nos setores primário e secundário da economia ao mesmo tempo em que contribuem para o aumento da oferta de trabalho no setor de serviços. Isso ocorre de maneira controlada nos países que já entraram na era pós-industrial.
O uso da máquina deverá estar integralmente voltada para atividades repetitivas e, especialmente, para as que representam algum perigo para o homem, sob intenso controle governamental, que deverá se responsabilizar pela oferta de aumento de capacitação que permita aos substituídos a chance de passar a operar a máquina mais sofisticada, ficando dessa forma inserido e adaptado ao novo cenário da indústria. Se para os países que adotaram tal postura o número de empregos gerados foi menor do que os criados pelo avanço tecnológico, imaginem o que aconteceu aos que simplesmente se limitaram a cruzar os braços e aguardar os acontecimentos, diante dessa nova realidade, como lamentavelmente fizemos nós brasileiros.
O aumento de salários decorrente da maior especialização exigida dos trabalhadores deveria acarretar imediato aumento de consumo que se refletiria no setor de serviços, principalmente. O maior poder aquisitivo tem propiciado, por exemplo, uma grande demanda no setor educacional e em lazer e turismo, gerando com isso, novos empregos.
O balanço final entre a criação e a eliminação de postos de trabalho é muito mais adverso nos países em desenvolvimento, acarretando, concomitantemente, desemprego e subemprego, esse último em função do fato da oferta de pessoal de nível superior ser maior do que a criação de empregos de nível correspondente. Essa situação híbrida de desemprego acaba por mascarar as estatísticas sobre desemprego nesses países.
Esse fato é ainda agravado pela prática das empresas multinacionais em preencher os cargos de alto nível em suas filiais espalhadas pelo mundo com a transferência de seu pessoal qualificado e excedente, o que significa em outras palavras que os países adiantados estão exportando seu desemprego para os países atrasados.
Seria equivalente a acreditar em Papai Noel aceitar a hipótese de que todo o desemprego dos setores primário e secundário da economia migrará imediatamente para o setor de serviços sem que se tenha de tomar em contrapartida ações pró-ativas em relação ao sistema de ensino.
O sistema de ensino dos países dependentes é fortemente afetado pela baixa qualidade demandada em termos de empregos especializados.
Nos países desenvolvidos, a evolução tecnológica exige cada vez maior qualidade e este fato reflete-se na universidade. Em outras palavras, a qualidade aparece como requisito natural e as universidades têm de responder a essa demanda. Não são necessários artifícios legais e quase sempre sem efetividade, para impor a excelência ao ensino universitário. As condições de oferta e procura resolvem naturalmente o problema.
A nossa realidade é infelizmente bastante desanimadora. O sistema de ensino, adaptado às exigências do setor produtivo, é carente de criatividade. O resultado é uma universidade pobre de idéias, sem debates e com professores e alunos apáticos. Os profissionais formados refletem bem essa situação, constituindo-se em autênticos representantes da geração da ‘‘múltipla escolha’’ com pequena base na área de ciências puras, o que lhes tira qualquer chance de êxito em termos de criatividade.
Estamos num círculo vicioso que impõe à Nação rumos incertos e perigosos, sendo a quebra mais fácil desse perverso processo uma revisão do sistema de ensino que privilegie a qualidade em detrimento a quantidade e passe a incentivar a criatividade e a formar não só empregados, mais e em especial, empreendedores que serão futuros empregadores. Aí sim, nosso País terá reflexos positivos da influência exercida pela ciência e tecnologia sobre o mercado de trabalho e o próprio sistema de ensino.