Hoje, como sempre acontece, getulistas verdadeiros e de fancaria farão as costumeiras celebrações em torno da morte do patriarca. Haverá a leitura da Carta Testamento e apologias ao caudilho que quando se transformava, de fato, em estadista se suicidou. Há quem entenda que o suicídio de Vargas é divisor de águas na política brasileira. Não é. A vitória da frente populista (não confundir com a ''frente popular'' comum na Europa) estava assegurada e apenas se consolidou com a tragédia e animou setores civís e militares à tentativa de mais um golpe em 55.
A ânsia em derrubar Getúlio começa nos campos de guerra na Itália. A elite militar brasileira, nela muitos da Coluna Prestes como Cordeiro de Farias, no convívio com as tropas americanas (um oficial de ligação importantíssimo era Vernon Walters que aconselharia a criação da Escola Superior de Guerra e dirigiria a CIA durante muitos anos), firmou o compromisso de restabelecer a democracia, o que só se obteria derrubando Getúlio. Com o fim da Guerra e a inevitabilidade do exílio de Vargas, tentou-se reformar o país e que teve com Dutra, apoiado decisivamente por Getúlio, um fiél seguidor da Constituição até o vexame da proscrição do Partido Comunista e a cassação dos seus eleitos.
RETORNO O retorno de Getúlio em 1950 é um desastre para esses ''modernizadores'' que tramam a queda do presidente, através a maioria dos jornais cosmopolitas e anti-nacionalistas, por causa da consolidação da Petrobrás e a criação da Eletrobrás (esta foi anunciada no salão nobre da Faculdade de Direito de Curitiba em reunião da Comissão Interestadual da Bacia do Paraná-Uruguai, CIBPU, em 53 como parte dos festejos do Centenário) e em cima do empréstimo de recursos do Banco do Brasil ao jornal ''Última Hora'' de Samuel Wainer. Com a trama da guarda pessoal no atentado a Carlos Lacerda e que vitimou o major Vaz, da FAB, o cerco aumentou e Getúlio, com o suicídio, cortou o golpe. Café Filho assume e como compadre do governador paranaense nomeia o seu cunhado Aramis Athayde para o Ministério da Saúde e Munhoz da Rocha para a Agricultura com o intento de fazê-lo candidato a presidente ou a vice. E em novembro aflora nova tentativa de golpe com a licença de Café Filho e a posse de Carlos Luz, o que divide as Forças Armadas e leva os generais Lott e Denis ao movimento de retorno aos poderes constitucionais vigentes para garantir a posse de Juscelino Kubitschek.
ORFANDADE O tiro não mudou a história, embora o clima de orfandade. As forças que se voltavam contra o populismo tentaram em operações isoladas (Aragarças e Jacareacanga) criar batalhas focais contra Juscelino que as dominou sem qualquer retaliação para os rebelados e retornariam com a vitória de Jânio Quadros, identificado mais ou menos com o que eles viam no Brigadeiro Eduardo Gomes, e sua renúncia que os mobilizaria contra a posse de Jango, em 1961. Três anos depois, devidamente amadurecido, há o golpe que alguns consideram uma revolução. Depois tivemos redemocratização, Constituinte delirantemente populista, crise de governabilidade, eleição do primeiro presidente (Collor) e sua queda por pressão do Congresso e da sociedade e chegamos à encruzilhada atual para provar que o diagrama das forças em choque continua o mesmo.
O Brasil se tornou uma sociedade complexa, urbano-industrial, avançou muito em tecnologia especialmente na agropecuária, melhorou consideravelmente seus padrões de democracia (a queda de Collor, dos anões do orçamento e daqueles que fraudaram o painel do Senado revelam uma cidadania mais participante e apurada, a neutralização parcial do preconceito erigido em sistema contra Lula é outra dessas evidências), mas os desafios estruturais persistem com a pobreza crescendo mas não tanto quanto os que dela se cevam politicamente. E, tragicamente, o país ainda anda atrás do homem providencial, um horror.

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