O tio vigário de Fernando Henrique - José Fernando da Silva
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de fevereiro de 1999
José Fernando da Silva 
Esta história é do tempo dos afonsinhos, antiga. Da época que falo, D. João, filho de Maria I, a Louca, não era rei, ostentava apenas o título de Regente do Reino. O Brasil era apenas uma colônia, não tendo sido elevado à categoria de Reino Unido. A comitiva real - um baita trem da alegria com 10 mil ilustres cidadãos portugueses - chegou ao Brasil em janeiro de 1808. Aportaram aqui e instalaram a corte no Rio de Janeiro. Um lugar considerado por eles fedorento, cheio de doenças tropicais e sem conforto. Em tese, o clima do purgatório é mais suave do que o do inferno e, antes morrer de febre amarela ao ter que experimentar o fio da espada de Napoleão.
Veio o ano de 1814. João Teodoro, um jovem de rosto cunhado nas incubadoras dos anjos, desembarca no Rio de Janeiro e procura as famílias mais tradicionais do Reino e ricos comerciantes por estas bandas viventes. Fala mansa, faz-se amigo de todos. Segreda a alguns que chegou sem nada, pois teve que sair às pressas de Portugal. Era herdeiro único de uma grande fortuna. O tio, vigário abastado, morrera. Não aguentando mais o assédio dos parentes e amigos, embarcou no primeiro navio que deixou o porto. Em Portugal ficara-lhe um procurador, que prometia enviar ao Brasil, assim que fosse possível, as arcas lotadas de ouro e jóias. A lenda se espalhou pela corte. De coração e olho crescidos sobre a fortuna do jovem português, a nobreza resolveu ajudar a tão cândida figura. João Teodoro viveu soberbamente por um ano, tudo recebendo de bom grado e sem nada gastar.
Mas um major de polícia acabou com a festa de Teodoro. Enviou uma carta para Portugal e logo depois recebeu a resposta: Antigo malandro, muito conhecido na Rua do Ouro, aqui em Lisboa. Teodoro ficou algum tempo preso e depois sumiu. A malandragem brasileira acabara de ganhar seu patrono e o conto-do-vigário deu origem ao verbete vigarista.
Desde então os vigaristas se esmeram em criar novos golpes. Temos centenas deles. Alguns são bem conhecidos e volta e meia são reeditados com leves aperfeiçoamentos: o conto do paco (a vítima é enganada com um pacote de papel imitando dinheiro); o conto da guitarra (suposta máquina que fabrica cédulas); o conto do 3 por 1 (troca de dinheiro falso por verdadeiro, recentemente praticado em Londrina); o conto do bilhete (a vítima compra um bilhete mentirosamente premiado); o conto da vaca (a vítima sobrevoa uma fazenda e o vendedor faz o negócio na hora, pois o terreno está cheio de vacas, na realidade pedras pintadas de branco).
A mente humana é uma usina rica em criações para o mal e a tendência da malandragem é aumentar os ganhos com um único golpe. Dinheiro dos otários no atacado. Ultimamente temos o conto do seguro, com as vítimas, velhinhas geralmente, depositando dinheiro numa conta para receber um seguro fictício; o conto da pirâmide - ganho de dinheiro fácil numa corrente de depósitos em contas dos participantes; o conto do Real, o mais recente de todos, que envolveu a Nação inteira ao induzir-se a moeda nacional a se passar pelo que não era, tendo um valor que não tinha, comprando o que não comprava.
Neste final de século, quando Fernando Henrique se faz digno preposto do Fundo Monetário Internacional (FMI), é difícil crer que a lógica da pilantragem ainda se mantém a mesma. A grosso modo, eliminando-se o intervalo de tempo, muito pouco há de diferença entre FHC e João Teodoro. O jovem português enganou a corte para comer e viver. FHC enganou o País para dar de comer a agiotas internacionais e sanguessugas do mercado financeiro. Enganou o povo - classificado por ele, com todas as letras, de caipira e otário - ao defender para si a reeleição e a continuidade deste governo vende-pátria.
Nos pequenos exemplos citados, foi possível observar que o estelionatário fundamenta seus golpes em quatro pontos: boa-fé e ganância da vítima; lábia e astúcia dele próprio. Desgraçadamente, boa-fé sempre demonstramos para quem nos governa. Ganância em se buscar uma vida melhor temos bastante. A lábia e astúcia sobram para os bonifrates do FMI que dizem nos governar.
E o golpe do Real não pára. Hoje, na hora em que estiver reunido com os governadores, FHC, com carinha de anjo, vai pedir trégua, vai tentar demonstrar que o grande responsável pelo desastre e indigência de nossa economia não é ele e muito menos a equipe econômica. O culpado é o governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB), que não aceitou participar até o fim do conto do Real. O culpado é o Itamar, que falou que Minas estava sem dinheiro, quando o combinado era dizer que tudo caminhava para se fazer aqui, abaixo da linha do Equador, o melhor dos mundos.
Será que FHC também tem um tio vigário?
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina


