O timoneiro perplexo - Luiz Geraldo Mazza
O timoneiro perplexo
Não chega a ser o grande timoneiro Mao-Tse-Tung, mas a presença do senador Requião, anteontem na televisão, lembrou muito disso. Nem o entrevistado, muito menos os entrevistadores se renovam. É o mesmo time. Só que diante do governo amuado que temos, o tom do PMDB parece ter crescido. É isso aí: Lerner potencializa Requião. Claro que Mao tinha maior capacidade de aglutinar, mas não se pode subestimar a do senador.
Só há um jeito de o PMDB recuperar o fastígio: uma espécie de recuo no tempo com Roberto Requião saindo, outra vez, a prefeito, sem precisar da cacunda de José Richa, como se deu em 1985. Vale repetir: Voltar atrás nunca mais. Além de má construção de linguagem, é uma sentença para esquecer. Porém, o risco de tal iniciativa, a de disputar com Cassio Taniguchi e a máquina, exige uma capacidade incomum de renúncia.
Benedito Pires, codificador verbal do requianismo, é radical na análise do tema: acha que não existe outra alternativa para alavancar o PMDB e, enfim, transformá-lo em pólo agudo de oposição a tudo que aí está porque a de Alvaro Dias inexiste, por oportunista e de baixos teores. Vencendo em Curitiba, o rumo estaria definido e a tendência, daí para a frente, seria acumular energia.
A ansiedade dos mais entusiasmados com esse roteiro é contida pelo temor de Requião de que a eventualidade de uma derrota sepulte a sua carreira. Aliados de outros partidos, como o deputado Ângelo Vanhoni, deixam claro que se ele sair a prefeito, abre mão da candidatura no interior do PT. A idéia seria um pacto abrangente com as esquerdas para pôr fim ao lernerismo em Curitiba e, na sequência, em todo o Paraná.
Com Requião em Curitiba, Cheida em Londrina, estariam assentados fundamentos da retomada do poder pela oposição. O detalhe a transpor é o seguinte: Lerner notoriamente vai mal, mas isso não se dá com Taniguchi. Em Londrina, os sinais de desagregação moral são compensados pelo Ibope de Belinati, embora se creia que tudo isso possa mudar radicalmente de uma hora para outra.
O timoneiro Mao estava firme, inabalável, contagiava os que liderava. O timoneiro Requião está um tanto quanto perplexo, meio pendular, ora excitado com a idéia do sacrifício, o que sempre confere aura heróica, ora cauteloso na análise das variáveis.
BIZARRICE
O ministro da Educação Paulo Renato já disse que ensino particular dá mais do que cocaína, como resultado comercial. Pode-se dizer que hoje há mais universidades privadas do que bordéis e nem por isso melhorou o nível de oportunidades, e muito menos minorou a responsabilidade ministerial nessas franquias todas
AXIOMA Mais um choque do petróleo: no segundo deles, um escritor americano, Michael Harrington, da nova esquerda, escreveu um livro O crepúsculo do capitalismo, ao superestimar a Opep na sua prensa sobre industrializados. As sete irmãs ficaram mais fortes. Quem enfraquece, a cada vez, é o Brasil, pois sua conta-petróleo sai de controle e o abismo cambial aumenta.
GLOSA A censura e a autocensura andam de mãos dadas: o jornalista Délio César, meu companheiro em Última Hora e Folha de Londrina, vê-se obrigado pela prensa paroquial a comunicar-se através da Internet. Ainda há quem se espante com a declaração do advogado Gofredo da Silva Teles, de que inexiste democracia no Brasil. É mais fácil cercar alguém em Londrina e Curitiba do que em Paris.
SPRAY O maior problema do governo Lerner, como tenho dito, é o da segurança. Como o governador é um indeciso que tenta acomodar todas as situações, fica muito difícil esperar que a instituição se recupere. - Uma espécie de colégio cardinalício de delegados aposentados, visivelmente preocupado com os rumos desagregadores da corporação civil, acaba de encaminhar um memorial ao secretário da Segurança Cândido Martins de Oliveira, com propósito de colaboração, não só condenando deformações, como a invasão de prerrogativas exclusivas de delegados de polícia por PMs, como questões de desvio de conduta. - São alinhados entre os absurdos cometidos desde a questão do superfaturamento de helicópteros, a absurda locação de frota de veículos enderaçada à Polícia Civil, decisões como a da ilegal aposentadoria maciça de autoridades policiais na década de 80, e inaplicação de recursos do Funrespol. - Oficiais da PM também se movimentam ao lado do pessoal da reserva, pleiteando que o governo retome o respeito à boa doutrina, sem deformações na questão das promoções. - Nos dois casos se reclama menor ingerência da política de campanário na área. Em Cascavel, um deputado-radialista, que já tirou o delegado de carreira da região, tenta agora afastar o comandante regional da PM. - Esperava-se que com a morte de Aníbal Khury a área ficasse mais ajustada aos regramentos institucionais, até pela falta de alguém que lhe ocupasse o espaço dominante. A frouxidão do governo, como disse o Requião na tevê, e com sobras de razão, é que estimula os políticos. - Na verdade, o que o manifesto da Polícia Civil pede é a quebra do imobilismo, da inércia, da abulia, enfim, dominante. Reclama no mínimo uma balançada.
FOLCLORE Quando Munhoz da Rocha era governador, ele fez um discurso pesado contra a oposição ao receber a maioria parlamentar no antigo Palácio. O redator palaciano era eu, que tentei reproduzir tudo e que provocou uma baita reação com discurso de duas páginas na Gazeta do Povo, do deputado Acioly Filho. Quanto à oposição que me fazem, conheço-lhe as raízes. Sei os métodos que poderia empregar para anulá-la. Mas se estivesse ombro a ombro com essa gente, estaria traindo o meu mandato. Tudo de improviso, eu escrevi e o Homero Braga, que era meu chefe e me levou ao jornalismo, aprovou.





