Quando os eleitores fazem questão de demonstrar seu desdém pelas campanhas eleitorais, como está acontecendo agora, isto obviamente traduz a desilusão popular com a classe política. Mesmo porque, reiterados escândalos ligados à corrupção praticada por detentores de cargos públicos, e a insistente propaganda baseada na desgraça e na catástrofe tão ao gosto de certos setores que oscilam entre a ideologia e o oportunismo, a má-fé e o atraso, induzem o povo a desconfiar e a se lamuriar mais do que o costume. Entretanto, seria falso afirmar que o cidadão comum não gosta da política. Gosta. E muito. Nas rodas, nos bares, nas esquinas, os ataques e a defesa de candidatos se avolumam a medida em que a eleição se aproxima. De fato, tocar em temas políticos é como acender um fósforo na opinião alheia, que prontamente se incendeia de argumentos.
Muitos dizem: ‘‘Ainda não sei em quem vou votar. Para mim ninguém presta. Detesto políticos.’’ No fundo, porém, de cada olhar, uma chamazinha vai se acendendo enquanto a conversa esquenta, e um por um dos candidatos, especialmente os prefeituráveis vão sendo dissecados, revirados, julgados em praça pública.
Portanto, mesmo desprezando os políticos, as pessoas estão de olho neles, por mais que digam que não se interessam por política, que odeiam horários eleitorais gratuitos, que nenhum candidato merece confiança. Elas sabem, nem que seja de forma difusa, que suas vidas em grande parte dependerão dos que galgarem o poder no município. É que por trás de cada vitória está o IPTU, o transporte coletivo, o lixo, a água, os túmulos do cemitério e tudo o mais sobre o que decidem constantemente os tomadores de decisões nas prefeituras e nas Câmaras Municipais. De certo modo, o povo já tem noção, ainda que vaga, que é assim que as coisas acontecem.
Por causa disto, os candidatos sabem que a confiança do eleitorado é o elemento-chave para se obter sucesso nas urnas. Difícil de ser conseguida nos tempos atuais e por isso mesmo preciosa, a confiança possibilita a identificação e permite o reacender da esperança, o que quer dizer o sonho. Disso se conclui que vence o personagem político que transmita credibilidade e esperança. Tudo o que o povo quer é um Jimmy Carter abrasileirado, capaz de acertar em cheio na vibração coletiva ao transmitir com convicção: ‘‘Trust me (confiem em mim).’’
Confiança e voto são pois indissociáveis, e o candidato confiável é esculpido pelas agências de marketing, pelas pesquisas, pelas técnicas de comunicação. Contudo, todos que tentam se eleger sabem o quanto é difícil a conquista do cargo diante da considerável massa do eleitorado que espreita, espera, desconfia, negocia e faz sua peculiar identificação. Principalmente os mais pobres ‘‘dirão’’ com seus votos na urna: ‘‘Esse nos serve. É como se fosse um de nós. Ele vai olhar pela gente. Vai nos proteger.’’
Essa tônica paternalista que aflora das eleições é peculiarmente acentuada no Brasil por conta da nossa formação histórica. Sobretudo na classe dos mais humildes, faz resvalar a escolha através da razão para a escolha através da emoção. Pouco importam a ideologia ou o partido do candidato, suas convicções ou programas. A confiança advém de algo inefável ligado à personalidade do líder. E desse modo, abre-se perigosamente o caminho do poder para os demagogos, para os medíocres, para os incompetentes, para os corruptos, para os gananciosos, refazendo-se o ciclo da desconfiança e da frustração.
Mas será a insatisfação trazida pelo próprio voto dado suficiente para que o eleitor amadureça e reflita melhor sobre suas escolhas? Freud afirmou que ‘‘a maioria dos humanos experimenta a imperiosa necessidade de admirar uma autoridade perante a qual possa inclinar-se e pela qual seja dominada e por vezes até maltratada’’.
Teorias a parte, de eleição em eleição, de erro em erro, tudo indica que o eleitor brasileiro começa lentamente a amadurecer. A própria indiferença demonstrada com relação aos políticos já é um sintoma de que se começa a perceber o absurdo de certas promessas e as mentiras mais deslavadas. E essa percepção advém do aprendizado obtido pela experiência de cada um diante das tramas e manhas do poder político.
Ressalve-se que esse processo ainda está longe dos patamares mais elevados da cidadania, tal o nível de desinformação popular e a facilidade com que as pessoas se deixam enganar. Isso explica o ‘‘rouba mas faz’’ e o fascínio por demagogos ainda tão presente. Entretanto, um certo nível de politização já é detectável, o que sem dúvida amplia um pouco a característica do sistema democrático ainda tão frágil no País.
Evidentemente, as percepções mais atiladas dos eleitores diante dos políticos são diferentes quando se coloca outro tipo de escolha. Exemplo disto foi o ‘‘plebiscito’’ sobre as dívidas interna e externa, que se realizou nesta semana sob a liderança da CNBB acolitada pela CUT, pelo PT, pelo MST e outras instituições que se denominam de esquerda. Manipulando a opinião pública através do convincente e comovente sentimento de vitimização do povo diante do governo, do FMI e de outros agentes satanizados, essas agremiações jogaram ao mesmo tempo com a desinformação e com a credulidade popular.
Só que os autores do calote não explicaram entre outras coisas, conforme ressalta um dos editoriais do jornal ‘‘O Estado de S. Paulo’’ de terça-feira passada, ‘‘que mais de 60% da dívida externa foi contraída pelo setor privado’’. Isso significa, que mesmo que o calote fosse dado, ‘‘a população não usufruiria benefícios. Antes passaria pelas dificuldades da interrupção do comércio externo, da falta de crédito no exterior. E tais dificuldades são simples de resumir: escassez de bens, carestia, inflação’’. Será que os nossos bons bispos não sabiam disso ou não acreditam que tal desastre possa acontecer, como já sucedeu em tempos não muito afastados?
Esperemos que essas eleições sejam o teste da maturidade eleitoral para que, inclusive, cenários ligados ao calote não se repitam levados a efeito por governantes irresponsáveis por nós eleitos.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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