O tom do mundo, escreveu Montesquieu em ‘‘Meus Pensamentos’’, consiste muito em falar de bagatelas como se fossem coisas sérias, e de coisas sérias como se fossem bagatelas. Talvez por isso mesmo, os nossos governantes e estrelas do mundo político gostem tanto de fazer essa inversão, adoçando o cotidiano com pitadas de riso, uma espécie de néctar para suportar esses tempos de denúncias sobre favorecimentos ilícitos, CPIs contra a corrupção, esquemas de superfaturamento, milionárias contas no exterior e malhas subterrâneas de espionagem. Será por isso que o presidente Fernando Henrique, angustiado com tantas pressões e histórias envolvendo até pessoas do círculo familiar, tenha optado, nos últimos dias, pelo glamour e encanto do mundo fashion, ao posar ao lado das belas Vera Fischer e Gisele Bundchen?
Como diria Freud, o presidente preferiu o triunfo do princípio de prazer, a fruição de uma primeira página risonha e estética nos jornais, a oportunidade de parecer (e aparecer) bem com a vida e com os belos frutos que ela proporciona. Afinal, que governante não gostaria de colar sua imagem à beleza de duas de nossas mais deslumbrantes louras? Trata-se de uma decisão que, sociologicamente falando, está mais para Demócrito do que para Heráclito. Como se recorda, os dois filósofos tinham concepções diferentes sobre a condição humana. O primeiro ridicularizava a vida e o homem e só aparecia em público com um ar arrogante e zombeteiro; o segundo, ao contrário, tinha compaixão pelo ser humano, e demonstrava solidariedade com um ar sempre entristecido e os olhos marejados de lágrimas.
O Brasil está cheio de Demócritos, mas a carência maior é de Heráclitos. Não que o presidente deva abrir seu saquinho de lágrimas. Trata-se, isso sim, de sintonizar o discurso com o tom do momento. E a realidade brasileira, nesse final de ano, é a de um cipoal cheio de encruzilhadas, com imperfeições que assustam, como a queda de qualidade nas escolas privada e pública, esta última um ícone de orgulho na avaliação recorrente dos tucanos. A descoberta foi feita pelo próprio MEC. Apaga-se mais um adjetivo qualificativo do discurso social do governo.
Nos anos dourados do nosso presidente-intelectual, o País alcançou a meta da estabilidade econômica, mas o povo está muito longe do conforto social. Este estigma deve doer na cabeça de um schollar. Ou será que o longo convívio com o poder esfria o coração dos mandatários, a ponto de torná-los impermeáveis às tristes interrogações nacionais?
Quem ouviu, nos últimos tempos, um grito de ‘‘Viva o Brasil’’? Em quantas salas de aula, canta-se diariamente o Hino Nacional? Quem acha que os impostos e tributos diminuíram? Quem acha que a vida do pequeno e médio empresário melhorou? Há alguém que considere adequada a legislação trabalhista da era getulista? Quem acha que as empresas nacionais têm mais regalias e benefícios que as empresas multinacionais? Quem acredita que a violência está diminuindo? Quem sentiu os resultados do Plano de Segurança? Alguém acha que professores e alunos estão satisfeitos com as condições de ensino? Qual felizardo consegue encontrar uma bandeira brasileira para adquirir antes da bandeira de qualquer grande time de futebol? Quem acha que o Produto Nacional Bruto da Felicidade (PNBF) está crescendo?
As respostas atestam o grau de nosso patriotismo. E nelas se situa a distância entre o território, o país e a nação. O território é o espaço físico que nos abriga. Orgulha-nos o espaço brasileiro pela grandeza continental, pelas belezas e riquezas naturais. O território não tem alma, é um diamante bruto que, lapidado por leis, códigos, processos, habitado por pessoas, governado por representantes do poder popular, adquire o status de país. Já a nação, que tem alma, é o espaço do civismo, da solidariedade, da justiça, do desenvolvimento, da liberdade, da ordem, da democracia, da autoridade, da soberania, da cidadania.
Pois bem. As reformas realizadas (e foram de vulto) não têm atenuado as mazelas sociais. Estamos cada vez mais distanciados no território e segregados no país por ilhas de desigualdades. Milhões de brasileiros, em seus espaços, assemelham-se a incrustações de conchas em rochedos brutos, assolados por tempestades e furacões. Agarram-se à vida com pequenos fios de esperança. Não se pode esperar deles espírito cívico. A insegurança generalizada corrói as vitaminas espirituais. E assim a pátria, um sonho dentro de cada consciência, vai se esgarçando numa nuvem opaca e fugidia.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário em São Paulo e consultor político
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