O diretor do instituto de pesquisas Vox Populi, Marcos Coimbra, tem uma curiosa definição para os lances da corrida presidencial do primeiro semestre de 2002. Ele os chama de ‘‘não-fatos’’. São acontecimentos, como lançamentos de candidaturas, sugestões de nomes e divulgação de resultados de pesquisas, que ganham muito destaque nos jornais e nas discussões políticas, mas não definem o quadro sucessório. Em resumo, fazem muito barulho por nada.
Algumas datas, consideradas marcos divisórios das decisões, também são pura ilusão. Uma delas é o prazo de desincompatibilização dos ocupantes de cargos executivos que planejam disputar a eleição. O prazo esgota-se em 6 de abril. O governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, está nessa categoria. Se deixar o cargo na data, significa que abandonará a disputa por um segundo mandato e concorrerá à eleição presidencial? Não. Ele pode muito bem – e essa é uma das opções com as quais ele trabalha seriamente – disputar um novo mandato de governador. Nada o impede.
Assim, o prazo de desincompatibilização e seus desdobramentos, para Marcos Coimbra, estão na categoria de não-fatos políticos. Os lances nesse período podem, sim, indicar tendências futuras, mas nem assim serão definitivos. O tempo de decisões eleitorais é junho, prazo final para as convenções partidárias que indicarão os candidatos à disputa. As pesquisas de intenção de voto, nesse momento, serão determinantes. Será candidato quem estiver em melhores condições nas pesquisas. Nem os nomes já apontados para disputar os governos estaduais estão seguros.
Se tudo o que acontecer nos próximos meses é não-fato, que importância têm eles para o eleitor? Por que alguém se interessaria em acompanhar as armações políticas? Porque, embora não sejam definitivos, esses não-fatos influenciam o processo de decisão. Trata-se de uma fase em que os partidos e os candidatos conversam com o eleitor. Alguns movimentos, como possíveis coligações e lançamentos de nomes, afetam o eleitorado. Fazem-no pensar. A reação dos eleitores, por sua vez, afeta o sistema político. Nomes vão e voltam nas discussões e conchavos políticos. ‘‘É um processo dinâmico’’, ensina Coimbra.
Portanto, não existem candidatos fabricados ou impostos à opinião pública. Se publicidade partidária decidisse tudo, não seria necessária a contagem dos votos. O eleitor, em qualquer análise, é quem manda.
ARLETE SALVADOR é jornalista

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