O homem, através dos milênios, tem se apegado de tal maneira à condição humana e à materialidade, neste mundo terreno, que assiste imperturbável aos fenômenos diários da vida e não se amedronta diante da violência, dos conflitos, das misérias sociais. Encara com naturalidade a turbulência que o rodeia, compõe o coro dos indiferentes e sente-se confortável nessa passividade - até para não ser convocado a pensar nas soluções - mas reage imediatamente ao ver, ouvir ou ler algo que transcenda as dimensões da fisicalidade e que o obrigue a pensar. Este é um campo que o amedronta, porque pode surpreendê-lo com o que lhe é desconhecido e levá-lo a refletir, a assumir alguma responsabilidade ou a submeter-se a alguma renúncia.
Ao repelir o novo - se isto tenha a ver com sua espiritualidade - até ufana-se de ser uma pessoa de ‘‘personalidade forte’’, que não se deixa influenciar por essas fraquezas... Às vezes reage com ironia e sarcasmo, e se pertence àquelas religiões mais fanáticas chega a reações de ira.
Descendo bem ao nível terreno, nos nossos dias, imagine-se o vândalo, que não se perturba com os automóveis velhos que vê estacionados mas sente uma impulsão descontrolada por danificar aquele que é novo e lustroso (naturalmente quando não lhe pertence...); por atear fogo ao orelhão telefônico que acabaram de instalar, portanto novo em seu caminho; arrancar a flor que acabou de desabrochar, porque antes ela não estava ali; destruir a pequena árvore plantada e junto com ela a grade protetora, porque passaram a ser elemento novo em sua paisagem diária.
O novo o perturba, o inquieta. Assim com as idéias novas, com as revelações, com o aceno ao desconhecido possível ou supostamente possível, ao ultradimensional.
O homem muito apegado à carnalidade nega o que desconhece, quando isto transcenda seu universo físico. E ao negar sem conhecimento, no mais das vezes agride, porque fanatizado pela descrença. Quem nega sem embasamento tem o quê? Apenas sua negativa, que não significa a destruição da verdade. A negação é uma afirmação, e esta deve estribar-se em algum argumento, ou não terá validade como afirmação e portanto anulará a negação, passando a ser uma hipótese.
Já sustentar-se na personalidade é, em verdade, escravizar-se a ela. Personalidade é um atributo do mundo físico, é o intelecto, é o eu pessoal predominando; não é um atributo da espiritualidade, do universo da alma.
Pessoas de ‘‘personalidade forte’’ são pessoas frágeis, porque presas à fisicalidade. A personalidade navega pelas camadas inferiores da consciência, mas a luz e a sabedoria, estas nos chegam pelos caminhos da alma e então enriquecem a personalidade. Nunca o inverso. O inferior não pode ter prevalência sobre o superior.
O corpo abriga a alma e esta abriga o espírito. A alma é intermediadora e nela estão os registros de nossas vidas carnais precedentes (que no nível do espírito são uma única e contínua vida). A alma é que rege nossos passos humanos e é a ponte que liga nossa fisicalidade ao espírito, que é o nosso Eu Superior. É através dela que nos chegam todos os avisos. Ela é o canal de nossa intuição. A alma nos fala em silêncio e precisamos estar sempre atentos para escutá-la. Porisso não devemos aprisioná-la na gaiola de nossa personalidade.
E como libertá-la? Exercitando a divindade que existe em nós. Exercitá-la não deve ser uma crença cega, uma idolatria, mas o estado de consciência de que carregamos dentro de nós os atributos divinos concedidos como herança por Aquele que nos criou à sua imagem e semelhança. Somente crer em nossa condição divina não resolve. Temos que identificá-la em nós e vivenciá-la.
Compreendendo-se um espírito imortal, construído com a argamassa do tecido divino, e não um ser carnal, o homem já terá ingressado no Reino. Ele precisa sentir a presença desse poder dentro dele. Não terá que frequentar nenhum templo ‘‘erigido pelas mãos do homem’’, porque seu corpo é seu santuário enquanto envoltório da alma e por extensão de seu espírito. Buscando a harmonia nesse santuário interior, o homem se harmonizará também com o universo exterior, e terá domínio sobre ele próprio e sobre todas as coisas.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

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