O tédio dos milionários
Os banqueiros não podem mais sair às compras. Os bancos estão cada vez ficando mais caros. Anda tudo pela hora da morte. Os ricos estão de queixo caído com os preços. Mas isso só aflige os ricos. Os milionários estão se divertindo por aí. E esses sim podem sair às compras. Pegar a liquidação de uma empresa estatal sul-americana, uma concessãozinha na distribuição de gás na África, uma telefônica na Austrália, essas coisas.
A perplexidade dos banqueiros foi até motivo de reportagens na imprensa. Mas os milionários também têm as suas preocupações. Uma delas é achar rico de uma pobreza incrível. Outra é descobrir onde gastar. Tirando os países que estão com boa cotação no mercado e que eles podem adquirir em vários continentes, não resta mais nada. Como ensina Bernard Shaw no seu Socialismo para Milionários, não se pode dirigir duas Lamborghinis ao mesmo tempo e nem viajar em dois jatinhos de uma só vez.
Um tédio. Por isso é preciso inventar novos objetos de desejo, novos ícones para representar sonhos de consumo. Que tal uma jaqueta HermSs por US$ 40 mil, um casaco de peles Dolce & Gabbana por US$ 33 mil ou ainda um sapato Manolo Blahnik por US$ 11 mil o par? E bota valor agregado nisso.
Se os milionários estão se distanciando cada vez mais dos ricos, o que dizer dos pobres? Para John Kenneth Galbraith, o capitalismo sempre funcionou assim: ocorrem períodos de grandes ganhos e depois se faz uma correção, que pode ser dolorosa. Para o velho professor e conselheiro de vários presidentes norte-americanos é preciso ter extrema cautela com o que está acontecendo. Não importa o preço do Aston-Martin nem da saia HermSs, o problema é que o altíssimo poderio econômico dos Estados Unidos pode suscitar a idéia de que o país precisa assumir uma responsabilidade especial na condução do mundo, disse Galbraith.
Acoplada a essa idéia também se junta o conceito da globalização que vê como obstáculos à funcionalidade as barreiras locais e nacionais que impedem o desdobramento da lógica da eficácia e do rendimento na ação do capital. Daí as coisas podem ficar complicadas porque sempre há que se contar com a arrogância dos vencedores ajudados pelos portadores da sabedoria convencional.
Segundo Galbraith, aqueles que adotam uma forma de pensamento conformista, de inteligência sem risco que, em vez de investigar novos ângulos e possibilidades na discussão dos problemas humanos, contentam-se em repetir aquilo que a maioria já sabe, garantindo aplausos de antemão, aqueles que apenas repetem idéias que estão na moda.
Para o escritor e diplomata Sérgio Paulo Rouanet, o processo de globalização precisa andar ao lado do processo de universalização cujos agentes seriam as organizações não-governamentais, os partidos políticos, os sindicatos, os parlamentos, os governos democráticos e os intelectuais críticos comprometidos com ideais universalistas. São duas culturas que precisam se reconciliar. É para ela que caminhamos, e ali chegaremos um dia, se a humanidade não for destruída antes pela homogeneização total do mundo, como querem os xiitas da globalização, ou por sua retribalização, como querem os cruzados da purificação étnica, afirma Rouanet.
É nesse sentido que o milionário de caricatura precisa ser reeducado. Daí, não interessa a ninguém se ele resolver presentear com um colar de US$ 200 mil a sua amante argentina.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista político em São Paulo





