O teatro do Bem e do Mal
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de setembro de 2001
Eduardo Galeano 
Na luta do Bem contra o Mal, sempre é o povo que entra com os mortos. Os terroristas mataram trabalhadores de 50 países em Nova York e Washington, em nome do Bem e do Mal. E em nome do Bem contra o Mal, Bush jura vingança: ''Vamos eliminar o Mal deste mundo''. Eliminar o Mal? O que seria do Bem sem o Mal? Não apenas os fanáticos religiosos precisam de inimigos, para justificar sua loucura. Também necessitam de inimigos para justificar sua existência, a indústria de armamentos e o aparato militar dos EUA.
Bons e maus, maus e bons: os atores mudam de máscaras, os heróis passam a ser monstruosos e os monstros, heróis, conforme exigem os que escrevem o drama. Isso nada tem de novo. O cientista alemão Werner von Braun foi mau quando inventou os foguetes V-2, que Hitler descarregou sobre Londres, mas se converteu em bom no dia em que colocou seu talento a serviço dos EUA.
Stalin foi bom durante a Segunda Guerra, e mau depois que passou a dirigir o Império do Mal. Nos anos da Guerra Fria, John Steinbeck escreveu: ''Talvez o mundo todo necessite de russos. Aposto que também na Rússia se necessita de russos. Talvez eles os chamem americanos.'' Depois, os russos ficaram bons. Agora, Putin também diz: ''O Mal deve ser castigado''.
Saddam Hussein era bom, e boas eram as armas químicas que empregou contra os iranianos e os curdos. Depois, virou mau. Já era chamado Satã Hussein quando os EUA, que vinham de invadir o Panamá, invadiram o Iraque, porque o Iraque havia invadido o Kuwait. Bush pai teve a seu cargo esta guerra contra o Mal. Com o espírito humanitário e de compaixão que caracteriza sua família, matou mais de cem mil iraquianos, civis em sua grande maioria.
Satã Hussein continua onde estava, mas este inimigo número 1 da humanidade caiu para a categoria de inimigo número dois. O flagelo, agora, chama-se Osama bin Laden. A CIA ensinou tudo o que sabe em matéria de terrorismo: Bin Laden, amado e armado pelo governo dos EUA, era um dos principais ''guerreiros da liberdade'' contra o comunismo no Afeganistão. Bush pai ocupava a vice-presidência quando Reagan disse que estes heróis eram ''o equivalente moral dos Pais Fundadores da América''. Hollywood concordava com a Casa Branca. Nessa época, foi filmado ''Rambo 3'': os afegãos muçulmanos eram os bons. Agora, são maus, muitíssimo maus, na época de Bush Filho, 13 anos depois.
Henry Kissinger foi dos primeiros a reagir diante da tragédia. ''Tão culpados quanto os terroristas são aqueles que os apóiam, financiam e inspiram'', sentenciou, com palavras que Bush repetiu horas depois. Se é assim, seria preciso começar por bombardear Kissinger. Ele seria culpado de muito mais crimes do que os cometidos por Bin Laden e por todos os terroristas do mundo. E em muito mais países: atuando a serviço de vários governos norte-americanos, deu ''apoio, financiamento e inspiração'' ao terror de Estado na Indonésia, Camboja, Chipre, Filipinas, África do Sul, Irã, Bangladesh e nos países sul-americanos que sofreram a guerra suja do Plano Condor.
Em 11 de setembro de 1973, exatamente 28 anos antes das explosões nos EUA, foi incendiado o palácio presidencial no Chile. Kissinger havia antecipado o epitáfio de Salvador Allende e da democracia chilena, ao comentar o resultado das eleições: ''Não temos motivo para aceitar que um país se torne marxista pela irresponsabilidade de seu povo''. O desprezo pela vontade popular é uma das muitas coincidências entre o terrorismo de Estado e o terrorismo privado. O ETA, que mata pessoas em nome da independência do País Basco, diz: ''Os direitos não têm nada a ver com maiorias e minorias''.
Muito se parecem entre si o terrorismo artesanal e o de alto nível tecnológico, o dos fundamentalistas religiosos e o dos fundamentalistas do mercado, o dos desesperados e o dos poderosos, o dos loucos e o dos profissionais de uniforme. Todos compartilham o mesmo desprezo pela vida: os assassinos dos 5 mil cidadãos nas torres gêmeas, e os assassinos dos 200 mil guatemaltecos, em sua maioria indígenas, que foram exterminados sem que jamais o noticiário lhes desse a menor atenção. Eles, os guatemaltecos, não foram sacrificados por nenhum fanático muçulmano, mas por militares terroristas que receberam ''apoio, financiamento e inspiração'' dos governos dos EUA.
Todos os que namoram a morte também coincidem sua obsessão por reduzir a termos militares as contradições sociais, culturais. Em nome do Bem contra o Mal, em nome da Única Verdade, todos resolvem tudo se matando, primeiro, e perguntando, depois. E, por esse caminho, acabam alimentando o inimigo. Foram as atrocidades do Sendero Luminoso que, em grande parte, incubaram o presidente Fujimori, que, com apoio popular, implantou um regime de terror e vendeu o Peru a preço de banana. Foram as atrocidades dos EUA no Oriente Médio que, em grande parte, incubaram a guerra santa do terrorismo de Alá.
Embora, agora, o líder da civilização exorte a uma nova cruzada, Alá é inocente dos crimes cometidos em seu nome. Afinal, Deus não ordenou o holocausto nazista contra os fiéis de Jeová e não foi Jeová que determinou a matança de Sabra e Chatila, nem quem mandou expulsar os palestinos de sua terra. Por acaso, Jeová, Alá e Deus não são três nomes de uma mesma divindade?
Uma tragédia de equívocos: já não se sabe quem é quem. A fumaça das explosões faz parte de uma cortina de fumaça muito maior que nos impede de ver. De vingança em vingança, os terrorismos nos obrigam a caminhar aos tombos. Em uma parede de Nova York, alguma mão escreveu: ''Olho por olho deixa o mundo cego''. A espiral da violência engendra violência e também confusão: dor, medo intolerância, ódio, loucura. Em Porto Alegre, no início deste ano, o argelino Ahmed Bem Bella alertou: ''Este sistema, que já enlouqueceu as vacas, está enlouquecendo as pessoas''. E os loucos de ódio agem igual ao poder que os cria. Um menino de 3 anos, chamado Luca, disse outro dia: ''O mundo não sabe onde está sua casa''. Ele olhava um mapa. Poderia estar vendo TV.
- EDUARDO GALEANO é escritor e jornalista uruguaio (IPS)


