O teatro de boulevard - Gilles Lapouge
O teatro de boulevard
Gilles Lapouge
Os franceses consideram as proezas sexuais de Bill Clinton com uma mistura de incredulidade, zombaria e inquietude. O presidente da maior potência do planeta arrastado diante de um tribunal, respondendo provavelmente a perguntas sobre o perfil de seu falo, é coisa que dá vontade de rir e, além disso, nos dá um pouquinho de saudade: a impressão que se tem é a de estar assistindo aquilo que, na virada do século, chamávamos de o teatro de boulevard. As comédias de Jacques Feydeau ou Georges Courteline tratavam de adultérios, empregadinhas jeitosas e disponíveis, burguesões hipócritas, amantes escondidos dentro do armário e cuecas esquecidas por toda parte.
Alguns franceses ficam até com inveja da grande nação americana: Aí está uma nação feliz. A única preocupação de seus governantes, juízes, jornalistas, de sua elite, enfim, é saber se o órgão sexual de seu presidente é torto ou não. Deixa estar que é mais repousante fazer inquéritos sobre a virtude de Paula ou Monica do que ter de enfrentar o sofrimento de milhões de desempregados famintos e desesperados.
Outros, por sua vez, se perguntam se os americanos não são idiotas ou pervertidos. E medem a distância infinita que separa a cultura política dos EUA da de um velho país latino como a França. Não dá nem para imaginar, em Paris, um presidente sendo levado diante do tribunal porque uma ex-amante está querendo lavar a sua honra (leia-se, ganhar uma grana preta).
Um americano genial, Woody Allen, explica essas coisas em seu último filme, que acaba de ser lançado na França com o título de Harry dans tous ses états. A heroína do filme diz a seu amante: A sua vida inteira não passa de niilismo, sarcasmo e orgasmo. E Harry responde, com uma voz sonhadora: Quer saber de uma coisa? Na França, com um slogan desses, eu conseguiria me eleger.
Woody Allen não está errado. O fim da vida do presidente François Mitterrand foi extravagante: em seus últimos meses, ele se entregou, diante dos jornalistas, das rádios e televisões, a uma interminável confissão sobre as suas aventuras sexuais. E em seu enterro, ninguém se chocou em ver, lado a lado, diante do caixão, a esposa legítima com seus filhos, e a amante com sua filha, a bela Mazarine.
Essa é uma velha tradição francesa. No século 19, o poeta Victor Hugo, já idoso, foi surpreendido em companhia de uma jovem inteiramente nua. Os jornais comentaram: Deixa para lá! Na França a gente se reergue de tudo, até mesmo da cama. Mais recentemente, um dos príncipes da Igreja francesa, o cardeal Jean Daniélou, morreu numa casa de prostitutas, em Montmartre. Não deu jeito de sufocar o escândalo. A Igreja da França foi obrigada a publicar um comunicado. Andaram torrando os miolos para tentar descobrir uma explicação adequada e, finalmente, anunciaram que o cardeal Daniélou tinha morrido de repente, de uma expectase. Palavra genial, que ninguém conhecia e fez maravilhas, tampando a boca de todo mundo.
Na Belle Époque, a vida íntima dos presidentes da República era um prato cheio para os jornais. As atividades sexuais dos moradores do Palácio do Eliseu era seu assunto predileto. Houve quem fosse bem longe nessas atividades, digamos, esportivas. No fim do século, por exemplo, o presidente Félix Faure recebia regularmente, no palácio, a linda madame Streinhel, sua amante.
Mme. Streinhel era muito jovem e o presidente Faure, já bem idoso. Uma tarde, em meio às suas efusões amorosas, o presidente caiu duro nos braços da amante. A notícia se espalhou rapidamente por toda Paris. Os jornais enviaram seus melhores repórteres ao Eliseu, para apurar o que estava acontecendo. Um dos repórteres, ao chegar ao posto da guarda, pergunta: Est-ce que le président Faure a encore sa connaissance? (O presidente Faure ainda está consciente?) E o sentinela, entendendo de outra forma a palavra connaissance, lhe responde: A conhecida dele? Ah, meu senhor, eu a vi ainda agorinha. Estava saindo pela porta de serviço, acabando de abotoar a saia.
- GILLES LAPOUGE é correspondente em Paris da Agência Estado





