O tabuleiro do poder - Gaudêncio Torquato
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de abril de 1999
Gaudêncio Torquato 
A disputa política se assemelha a um jogo de xadrez. A mexida de uma pedra, no tabuleiro, objetiva defender o exército, anular a tática do adversário e derrotá-lo. Não há como deixar de se reconhecer que as mexidas no tabuleiro político, feitas nas últimas duas semanas pelo PMDB, tiveram esse objetivo. O adversário, no caso, não foi o presidente da República, mas o PFL e o PSDB, que estariam ocupando quase todos os espaços centrais da administração federal e, ainda por cima, bloqueando as vias periféricas do PMDB. A CPI dos bancos, tirada da cartola pelo presidente do partido, Jader Barbalho, constitui, nesse contexto, uma jogada para dar um xeque em pefelistas e tucanos. A jogada foi perigosa, pois pode atingir o coração do governo, ou seja, Fazenda-Banco Central. Foi uma tática de mestre.
Primeiro, porque coloca o partido no mesmo espaço político-institucional ocupado pelo PFL do presidente do Senado, ACM, certamente o mais poderoso político da atualidade. Segundo, porque deixa em maus lençóis o próprio governo, para quem uma investigação profunda no sistema bancário poderá amedrontar investidores estrangeiros. Terceiro, porque o PMDB avança na dianteira de temas extremamente populares. Quarto, porque, deixando o PFL e o PSDB para trás, começa a aplainar o terreno do futuro e a abrir frestas na consciência nacional e no mapa eleitoral.
O PMDB, já algum tempo, se sentia escanteado pelo presidente da República. O fato de contar com três ministros no governo (Padilha, dos Transportes, Calheiros, da Justiça, e Ovídio de Angelis, de Políticas Regionais) não lhe tem garantido a nomeação de quadros para o segundo escalão. O ministro Pimenta da Veiga, que faz a coordenação política, age como tucano e cria tensões. Cometeu o desatino de pedir a Fernando Henrique - juntamente com o presidente do PFL, senador Bornhausen - a exclusão do PMDB do sistema governista. Raciocínio do PMDB: Se o presidente é tucano, se o vice-presidente Maciel é pefelista, se os grandes espaços estão sendo ocupados por eles, o que os peemedebistas significam nessa aliança? Afinal, o PMDB registra 26 senadores, mais de 100 deputados federais e ainda conta com o maior número de deputados estaduais e vereadores em todo o País.
Feitas as contas, percebeu que podia partir para o ataque. Se deixasse a base situacionista, mesmo com alguma defecção, poderia se aliar às oposições e fazer grandes estragos ao governo. O presidente da Câmara, Michel Temer, cobra mais ação do Executivo, afirmando que o Legislativo fizera bem a lição de casa. O líder Gedel, do alto de sua contundência, defende melhor acolhimento ao partido. O ministro Calheiros, da Justiça, se exaspera por não conseguir nomear subordinados como o superintendente da Polícia Federal. Jader sai com a CPI dos Bancos para não deixar o PFL, de ACM, brilhar sozinho com a CPI do Judiciário. Nos bastidores, a movimentação febril dos presidenciáveis: ACM alargando espaços populares e de visibilidade; José Serra alargando poderes (Banco do Brasil - Andréa Calabi; Petrobrás - Philippe Reitschul).
Restam incógnitas: quais as consequências das CPIs do Judiciário e dos bancos? O que acontecerá caso magistrados - decisão já tomada - se recusem a comparecer à CPI? Quem vai levá-los sob vara? Malan e Banco Central têm respostas convincentes para a mãozinha dada a bancos quebrados? Por que os bancos ganharam tanto com a crise? As contas de brasileiros no exterior - Cayman e adjacências - virão à tona? Do lado da Câmara, as reformas tributárias e do judiciário caminharão pelas mãos de Comissões Especiais. Mas lá também persistem incógnitas: como fazer a equação para diminuir impostos, aumentar a base de arrecadação e ninguém sair perdendo? Que tipo de controle externo deve ser criado para o Judiciário?
Resumo da história: a briga por espaços políticos entre os partidos poderá ser benéfica para a sociedade. Aliás, a disputa por poder faz parte do jogo democrático. É assim em qualquer democracia. O que precisa ficar claro é o compromisso do partido para com a comunidade política. A conquista do poder deve abrir condições para que os partidos implantem seu ideário e fixem sua identidade. Se esse for o escopo, o personalismo cederá lugar ao ideal coletivo.
- GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista, é professor titular da USP e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos).
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