O suposto crime do Zé Tarugueiro - José Fernando da Silva
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de setembro de 1998
José Fernando da Silva 
Foi em abril do ano passado. Início de noite, matérias quase todas prontas e as páginas esperando tinta. Recebi um telefonema de Arapongas informando que um prefeito tinha sofrido um atentado. Pedi para a repórter levantar a história. Quinze minutos depois estávamos com todos os dados. O prefeito do recente município de Arapuã, Hélio Mathias, havia sido fuzilado por pistoleiros. Depois de uma breve discussão com outros editores definimos que o assunto era de política e não de polícia, pois o crime, além de envolver uma pessoa eleita pelo povo, fora praticado em circunstâncias típicas de crime político.
No final da semana passada, a polícia prendeu quatro suspeitos de terem sido os mandantes do assassinato. Entre eles, um primo do atual prefeito, vice de Mathias, José Pereira da Silva, o Zé Tarugueiro. A história estava toda ali: ameaças, carros incendiados e pistoleiros contratados. Nem mesmo Dias Gomes para escrever tamanho folhetim.
Todos sabem que a ficção é retirada do nosso dia-a-dia. Autor nenhum escreve sem fazer um apanhado de suas experiências até ter uma história completa. Mas a história da morte do prefeito Mathias parece justamente ao contrário: a vida sendo escrita pela ficção.
Nos registros mais antigos da história da humanidade há exemplos de mortes encomendadas de governantes. Movidos pela inveja e cobiça, entre outros pecados capitais, os assassinos ou mandantes despacham sem pestanejar políticos para o outro mundo. Assim foi com Júlio César. Herodes quase teve o mesmo fim, vítima da trama dos próprios filhos. Alertado, Herodes foi implacável, mandou matar os conspiradores. Heródoto conta como o soberano Candolo foi morto pelo seu guarda pessoal (hoje seria segurança) Gigés - que se tornou rei ao casar com a rainha viúva, mandante do crime. Os exemplos não faltam.
Na década de 70, Lauro César Muniz escreveu O crime de Zé Bigorna. Este folhetim ganhou as telas da Globo, depois virou filme, e o Zé Bigorna, representado pelo ator Lima Duarte, renasceu numa novela, como Zeca Diabo. Estes dois personagens, que no fundo são os mesmos, são também sujeitos fundamentalmente bons, mas que pela trama passam por conflitos morais e descambam pelas paixões humanas. No caso do Zé Bigorna, a trama é feita em cima do assassinato de uma pessoa poderosa da cidade. Pelas circunstâncias, Zé Bigorna assume o assassinato sem tê-lo de fato cometido. Pela fama ganha com o suposto crime, o personagem de Lima Duarte se vê cada vez mais afundado na própria mentira. Nem mesmo o aparecimento do verdadeiro assassino demove Zé Bigorna de sua certeza em ter cometido o crime.
Mas voltemos ao novíssimo município paranaense de Arapuã. Temos lá o suspeito Zé Tarugueiro de ter mandado matar o prefeito Mathias. Alguns atentados contra pessoas que denunciavam o crime, inclusive com carro incendiado. Famílias em conflito. O padre cobrando justiça. As beatas abusando da água benta. A população revoltada. Uma testemunha-chave que atende pelo sugestivo apelido de Zé da Funerária. Parentes suspeitos. As comadres no correio da cerca: cada uma com a sua versão para o crime. E pistoleiros mortos ou foragidos.
Com todo esse argumento da história do assassinato de Hélio Mathias, fico pensando se amanhã teremos uma nova matéria nos jornais, ou mais um capítulo de uma novela global. Definitivamente, a vida é uma coisa estranha.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina


